Monumento Revolta Ribeirão Manuel

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Que alternativa para a morte de memória? Caso do antigo Mercado Municipal de Santa Cruz



A memória é como o ar que respiramos. Sem ela, a nossa vida não faria sentido. Tudo que nos alimenta, tem na memória a estrutura que nos suporta. A destruição de lugares de memória em Cabo Verde tem sido constante. Tudo que se faz é justificado com o discurso da modernidade. Os detractores de memória esquecem-se que a modernidade é que resgatou a memória, atribuindo-lhe sentido e a universalidade, apesar de alguns descasos.
O que me motiva para escrever este texto tem a ver com a visão do desenvolvimento que autarquia deliberou para a destruição de um lugar físico e simbólico, o antigo Mercado Municipal de Santa Cruz. O Mercado, apesar de desprovido da exuberância arquitectónica, é o lugar histórico e simbólico de grande importância para a compreensão do quadro socio-histórico do Concelho. A imaterialidade que o envolve é fundamental para a sua valorização enquanto património colectivo. Fiquei triste quando li no Jornal A Semana (1059), de 24 de Agosto, que o Mercado Municipal vai dar lugar a uma “praça digital”… salvo o respeito que me merece os responsáveis da inusitada ideia.
Porque não a reconversão num mercado de produtos locais?!… Refere-se ao artesanato e outros produtos confeccionados localmente. Bastaria pequenos arranjos no espaço e elaboração de discursos de suporte, para transformar o Mercado num produto coerente, respeitador do seu traçado histórico.
A centralidade que a baixa do Porto de Santiago perdeu seria facilmente resgatada com a criação e a dinamização de fileiras de espaços e produtos locais. O desenvolvimento turístico teria ganho importante para o desenvolvimento do território e da população.
Santa Cruz não precisa copiar os maus exemplos de outros municípios; bastaria sensibilidade, criatividade e vontade política para transformar a invisibilidade em algo palpável e rentável para o benefício da sua gente.

Um filho de Santa Cruz que ama muito esta terra cheia de potencialidades. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Material para gambot'arte

Vou partilhar convosco algum material para o nosso projeto gambot'arte. Estamos a trabalhar para o enriquecimento do conteúdo para o site, com novas abordagens em termos de produções plásticas, de investigação, e de conteúdos para a promoção do nosso património cultural. Temos material interessante que contamos publicar, brevemente, para a reactivação da nossa memória coletiva. 
Aparição - J-badiu

Confrontação - J-badiu

Selva urbana - J-badiu

Negreiro - J-badiu

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia Mundial do Livro


Hoje comemora-se o Dia Mundial do Livro. Aos que amam esse instrumento de sabedoria, aproveitem este dia para escreverem poesias, crónicas, e façam muita leitura.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Desespero de um diretor

Neste contexto de crise, o insólito comunga com o desespero de alguns responsáveis. O diretor do Museu de Arte Contemporânea "deitou fogo" nas obras da Instituição em protesto as cortes orçamentais no setor da cultura. Esta noticia, vinda da Italia, tem causado algum desconforto, e algumas críticas sobre a postura do Diretor e da situação de crise em que vivemos.
fonte: JN, ed. 17/4/2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Serenata



Som di longi na lua cheia
luluxa ta sunha na enclavi
corda ta acaricia-l na mansu mansu
na petu lebi ki ta po-m ta sunha
suspira lebi pa fase-m lembra txel tempu  
ah! ki sodadi di mininensia nhor dés… béee…
ah nha membra, si pantera staba bibu, serenata era mas sabi
odja musica ta bisti bunitu ta sai ta corri…
música na ceu
odja strelas ta pista ku veu
diaxi-nho! Si calhar é prenunsio di kasamentu
Ayam. É midjor nu sumara propi
Dexa Sucuru fitxa
Ti Lua soma
Cu bioco e surriso
Talentu di conquista
Soma cu  acordi na tempu
Bocas sumara
Sai morna
Morna morninha pa namora
Djom Mendi cu viola na petu
Zebedeu cu música na boca
Luluxa ta spreta na janela
Nha Curason ta cundum cudum
Teson di vida
Paixon di mininencia
Voz di curason
Odju fitcha pa um beju
Bentu leba deseju pa bó, Luluxa 
xinti voz na curaçon
 odju ta fitxa
Silêncio toma conta lugal

18 de Abril, dia dos monumentos e sitios


Amanhã é o dia Internacional dos Monumentos e Sitios; esses "lugares de memória" devem ser valorizados e socializados para que as novas gerações possam refletir sobre o destino coletivo de uma nação. A celebração memorial, nos últimos anos, tem vindo a ganhar terreno como elemento estratégico das instituições e forças políticas, como forma de visibilidade pública. 
Em Cabo Verde, algumas iniciativas serão materializadas na Cidade Velha. Faltam outras entidades das ilhas comemorarem esse dia, de suma importância, para a história local e nacional. A sociedade civil, o poder local e central, deveriam prestar mais atenção a este efeméride. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Dia mundial da voz


Hoje comemora-se o dia Mundial da Voz. Em Cabo Verde, este efeméride passa despercebido por parte dos jornais online. Nada melhor do que relembrar grandes vozes da nossa cultura; Cesária Evora, Bana, Mayra Andrade, Lura, Zeca de Nha Renalda, entre outras vozes...


Retoma do editorial, museu&patrimonio de Cabo Verde

A equipa deste blogue retoma as atividades com novidades várias do panorama cultural cabo-verdiana e mundial. Um projeto que visa dar corpo às preocupações patrimoniais e museológica de Cabo Verde e não só, com novos enquadramentos setoriais para dar corpo a sustentabilidade do nosso projeto. Faz parte do corpo deste blogue, links que vão dar a outros lugares do nosso projeto: gambot'arte, nubai.tour, boka fogu e patrimonium.cv. 
Estamos aberto às parceiras. Quem quiser abraçar este desafio que entre em contato connosco: patrimonium.cv@gmail.com ou bemdesantiago@hotmail.com
 Atenciosamente
Carlos Mendes e Nelson Carvalho 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Mindelo património cultural nacional



Aprovado pelo Conselho de Ministros, a proposta de lei apresentada pelo Ministro da Cultura declara Mindelo como Património Cultural Nacional
No dia 22 de Janeiro, dia de São Vicente, o padroeiro da ilha do mesmo nome, nas celebrações da festa do Município, o anunciou foi feito para surpresa de muitos, num discurso do Ministro da Cultura no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
Mário Lúcio Sousa, presidia à sessão solene com que a Câmara Municipal assinalou mais um aniversário sobre o achamento da ilha, pelo escudeiro português Diogo Afonso.
Essa cerimónia começou por homenagear seis personalidades mindelenses. A título póstumo, as homenagens foram para a cantora Cesária Évora e Hermano Gonçalves (Nenája), ambos da música e recentemente falecidos. Outras quatro figuras ligadas ao Carnaval de São Vicente, mereceram a distinção da Câmara Municipal, como Luísa Morazo, da Escola de Samba Tropical, Dulce Oliveira Lima do grupo Estrela do Mar, Lili Fortes, do grupo Vindos do Oriente e Ana Soares, do Grupo Flores do Mindelo.
O ministro da Cultura saudou os homenageados e recordou com saudade, as figuras de Cise e Nenája.
"São Vicente não pode ser uma ilha adormecida" - realçou o titular da pasta da Cultura, que colocou em destaque os grandes nomes da cultura Mindelense, e os que a ilha adoptou, como Manuel d'Novas, Franck Cavaquim ou Malaquias.
E por considerar a Cultura como um dos maiores expoentes de São Vicente, Mário Lúcio Sousa anunciou que levou uma proposta ao Conselho de Ministros e, por lei, Mindelo passa a ser Património Cultural Nacional "Nós estamos a sentir que há uma pulsação. É preciso consolidar, mas temos boas perspectivas para São Vicente. E porque a Cultura deve ser o pólo fulcral para o desenvolvimento e, para isso, um dos primeiros passos é a classificação do casco histórico da cidade do Mindelo como Património Nacional. E queria dizer-vos que já não é candidato. Levei a proposta ao governo, e Mindelo, por lei, já é Património Nacional Cultural" - declarou o Ministro da Cultura.
De acordo com o governante, o mérito é dos sãovicentinos que souberam cuidar da cidade.
Esse reconhecimento implica a valorização de tudo o que seja património, desde os cidadãos, aos edifícios, tanto antigos como novos, pela história que os envolvem.
Ainda como propostas de Património Cultural, Mário Lúcio Sousa aponta São Filipe no Fogo, Nova Sintra na Brava, o Platô na Praia e Pedra de Lume no Sal. Outras propostas poderão ser trabalhadas, direccionadas para Fontaínhas em Santo Antão e Chã das Cal-deiras no Fogo.
O ministro, na sua mensagem no Dia de São Vicente, aproveitou ainda para anunciar que, ao longo deste ano de 2012, Mindelo terá o Museu da Cidade e a Casa/Museu de Cesária Évora.
O titular da pasta da Cultura tem já em projecto a criação de um gabinete turístico que tratará de criar roteiros para os turistas que passam por São Vicente.

28-1-2012, 12:05:04
Expresso das Ilhas

Julião Sousa, historiador guineense: “Encontrar a certidão de baptismo de Amílcar Cabral foi um dos momentos mais emocionantes” / Outras Notícias / Detalhe de Notícia



Numa entrevista exclusiva ao Expresso das Ilhas, via mail, o historiador guineense Julião Soares Sousa, fala de obra "Amílcar Cabral (1924-1973), vida e morte de um revolucionário africano", uma figura que considera ser mais citada do que conhecida. O livro recebeu o Prémio da Fundação Calouste Gulbenkian, História Moderna e Contemporânea de Portugal, da Academia Portuguesa da História. Natural de Bula, o investigador é Licenciado, Mestre e Doutorado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é investigador no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX.
Expresso das ilhas - porque defende que foi a mãe de Amílcar Cabral quem influenciou a sua formação intelectual, ao contrário de outros estudos sobre o revolucionário?
Julião Sousa - Eu não defendo que foi a mãe quem influenciou a sua formação intelectual. O que digo é que Iva Pinhel Évora teve um papel preponderante na formação de Amílcar Cabral. De resto, é o próprio Amílcar Cabral a afirmar que ela foi a "estrela da sua infância agreste", num poema do seu livro de curso de 1949 dedicado à progenitora. Está lá no poema. Não inventei nada. Da mesma forma que afirma que quem o influenciou, por exemplo, do ponto de vista literário foi um amigo, seguramente dos tempos do Mindelo, chamado Coutinho. Mas, se entrarmos no domínio especulativo podemos encontrar sempre uma infinidade de influências.
Qual a importância dessa tese e o que vem alterar?
Releva apenas uma outra leitura que se fundamenta nas palavras do próprio protagonista e não em especulações. Nada mais do que isso.
Quais foram os documentos novos a que teve acesso?
Vários, como se pode facilmente constatar. Mas, para mim, o facto de ter encontrado a certidão de baptismo de Amílcar Cabral foi um dos momentos mais emocionantes e altos das minhas investigações. Permitiu pelo menos acabar com alguma especulação sobre o local de nascimento. Como sabe há um sector residual na Guiné que punha em causa a naturalidade de Amílcar Cabral em Bafatá. Esse documento e a certidão de nascimento que sei que existe vieram pôr um ponto final nesse debate. Devo acrescentar apenas que sobre este assunto da naturalidade de Amílcar já ouvi as versões mais incríveis e desconcertantes.
Quanto tempo levou esta investigação?
Mais de cinco anos.
Qual a contribuição de Amílcar Cabral para a união dos movimentos anticolonialistas?
Na fase pré-revolucionária e no âmbito do Movimento Anticolonialista (MAC) a con-tribuição foi imensa, quer do ponto de vista político, quer financeiro. Efectuou várias deslocações a Angola para contactos com os nacionalistas angolanos, viagens pela Europa no âmbito da organização de células do MAC. Como sabe foi um dos fundadores e dinamizadores da FRAIN, em 1960, e da CONCP, em 1961, organismo que chegou a coordenar. No que concerne aos movimentos da Guiné e de Cabo Verde como sabe foi ele quem trouxe a ideia de unirão de todos num único projecto político e revolucionário. Posso mesmo afiançar-lhe que se empenhou denodadamente para a concretização dessa união das forças nacionalistas.
A situação actual na Guiné não se deve também à transformação militar feita por Cabral, que acabou com os senhores da guerra para instituir uma espécie de milícia nacional, que hoje continua sem controlo?
Não. Julgo que não é justo estabelecer essa ligação. A comparação só faria sentido com a situação do PAIGC anterior ao Congresso de Cassacá. Uma coisa é antes de Cassacá e outra depois de Cassacá. Há diferenças abissais. A diferença é que depois de Cassacá, apesar de alguns contratempos, Cabral logrou um certo controlo sobre as chefias militares que, como sabe, eram superintendidas nas diferentes frentes pelos comissários políticos. De resto, uma das razões que motivou a realização do Congresso de Cassacá, em 1964, foi justamente a necessidade de pôr termo ao clima de caos e de desordem que grassava no seio da guerrilha.
Portanto, a transformação operada em Cassacá fez com que houvesse uma evolução positiva com a criação das FARP e a inclusão da disciplina, respeito pelo poder político (Comissários Políticos) e pelas hierarquias na agenda do partido de Amílcar Cabral. Foi assim que o poder político subordinou o poder militar. Portanto, o espírito militarista e alguma desordem que sazonalmente imperam na Guiné-Bissau de hoje são o resultado de problemas recentes, cujas causas são bastante complexas, mas que, se quiser, fazem lembrar os tempos anteriores ao Congresso de Cassacá.
Qual é hoje a herança de Cabral tanto na Guiné como em Cabo Verde?
Depende um pouco das perspectivas. É claro que a Guiné e Cabo Verde encontram-se em fases diferentes do seu processo de desenvolvimento. Pessoalmente acho que a maior herança de Amílcar Cabral é essa luta corajosa, determinada e persistente dos povos destes dois países no sentido de se libertarem do subdesenvolvimento. A crença de que só com trabalho e grandes sacrifícios se pode vencer os aspectos que ainda atrofiam a marcha em direcção ao progresso.
Não será Cabral mais citado do que realmente conhecido?
Sim. É possível que assim seja. Mas isto resulta da própria complexidade do seu legado. Conhecer ou captar Amílcar Cabral nas suas múltiplas dimensões não é um exercício fácil.
"Qualquer ser humano é um produto do seu tempo"
Há sempre a questão, foi Cabral quem escreveu a história, ou foi a história que fez Cabral?
Um ser humano é sempre produto de um tempo e da história do tempo em que viveu. Mas também pode ser protagonista desse mesmo tempo e dessa mesma história. Sendo certo que um Homem só nunca fez a História e ser até perigoso atribuir o sucesso de uma revolução a acção particular de um indivíduo, permitir-me-á enfatizar a centralidade da figura de Amílcar Cabral não só no quadro do seu partido e dos movimentos de libertação da Guiné e Cabo Verde, mas também de outros movimentos de libertação das colónias portuguesas de África. Foi ele quem conferiu clarividência, consistência e significado ao processo revolucionário da Guiné e Cabo Verde.
Poderia outro líder ter tido a visibilidade conseguida por Cabral?
Podemos sempre responder afirmativamente, mas, como de resto sabe, havia vários líderes de movimentos de libertação nacional em Dakar e em Conakry naqueles tempos agitados. Uns da Guiné e outros de Cabo Verde. No entanto, nenhum deles logrou a visibilidade que Cabral conseguiu em muito pouco tempo. E não foi só em termos de visibilidade, mas até de credibilidade relativamente ao projecto da independência que defendiam. Esta é que é a realidade.
Como acontece o trajecto do Cabral ‘português' até ao Cabral que ‘regressa às origens'?
É um trajecto interessante que começa com o processo de socialização escolar em Cabo Verde. Como sabe era no ensino colonial que se moldava a personalidade dos indivíduos, através da assimilação aos valores da cultura portuguesa. Continua em Portugal com o seu envolvimento na luta antifascista ao lado dos movimentos de esquerda para depois, gradualmente, se autonomizar já na perspectiva anticolonial e da libertação do Homem Negro. Esta tentativa de autonomização acontece sobretudo por via das influências ideológicas e culturais e do contacto com os colegas angolanos que frequentavam as universidades portuguesas nos anos 40/50. É necessário enfatizar aqui a grande influência que o pan-africanismo e o movimento da negritude exerceram em Amílcar Cabral. Foi a partir destas influências que começou a questionar o processo de assimilação colonial e a reclamar o regresso às fontes ou a reafricanização dos espíritos.
Em 1960, foi enviado ao governo português um memorando, que diz que o trabalho feito no terreno, pelo PAIGC, estava a tornar o povo cada vez mais consciente politicamente. Essa análise corresponde à realidade?
Refere-se certamente ao Memorandum de 15 de Novembro de 1960. Esse Memorandum dizia de facto que o trabalho feito pelo PAIGC e o desenvolvimento da repressão colonial estavam a elevar dia a dia a consciência política das massas. O que lhe posso dizer é que foi a partir de finais de Outubro de 1960 que começou a entrar propaganda do PAIGC em Cabo Verde e na Guiné. Muita dessa propaganda tinha sido elaborada na reunião efectuada em Dakar, depois do regresso de Amílcar Cabral da China. De resto, a maior parte das mensagens dirigidas aos funcionários, aos soldados guineenses, cabo-verdianos e portugueses do exército colonial, datam desta altura. Não tenho dúvida de que o Memorandum se referia a este trabalho de propaganda que foi importante para o despertar das massas, tanto na Guiné como em Cabo Verde, relativamente aos aspectos perversos do colonialismo português.
"Ainda há dimensões sobre Cabral por explorar"
Num exercício especulativo, o que seriam hoje Cabo Verde e a Guiné, se Cabral não fosse assassinado?
É difícil dizer o que seria a Guiné e Cabo Verde se Cabral não tivesse sido assassinado. Uma resposta a essa pergunta obrigar-me-ia a entrar no domínio do contrafactual.
Pode resumir-se a vida de Cabral à sua frase "Sou um simples africano que quis saldar a sua dívida para com o seu povo e viver a sua época... "?
De certa maneira sim. Nos quase 50 anos em que viveu, dedicou muito do seu tempo à causa dos povos da Guiné e Cabo Verde e à causa da emancipação dos povos de uma forma intensa e apaixonada, cumprindo na íntegra a verdadeira missão do intelectual. Lembro-lhe que com 39 anos Cabral já liderava uma das guerrilhas mais importantes e famosas do mundo.
É Amílcar Cabral um lutador datado, cuja mensagem deixa de fazer sentido com a queda do muro de Berlim, ou as suas ideias ainda têm aplicação prática?
Sinto-me perfeitamente à vontade para lhe dizer que ainda há dimensões sobre Amílcar Cabral por explorar.
Os seus contributos na área da agricultura, questões relativas à integração das mulheres no processo político, a questão do patriotismo sentimental que pode ser primordial na hora de defender os interesses dos nossos países e dos nossos povos, a questão da ética no exercício do poder, a questão do medo de perder o poder que faz com que muitas vezes alguns políticos teimem em permanecer nos cargos contra tudo e contra todos, etc, etc, são matérias que continuam a interpelar a nossa consciência. 22 anos depois da queda do muro e 38 anos após o assassinato de Amílcar Cabral algumas das suas ideias continuam actuais e perfeitamente moldadas ao contexto difícil que a humanidade atravessa.
Cabral tinha ideias claras e precisas sobre o que seria o desenvolvimento da Guiné-Bissau e Cabo Verde após a conquista da independência?
Não sei se se pode falar de ideias claras e precisas. Mas se ler com atenção alguns dos seus textos como por exemplo as Análises de alguns tipos de resistência e uma boa parte de textos produzidos em 1969 e até as Palavras de Ordem de 1965 compreenderá perfeitamente o alcance das suas reflexões sobre o desenvolvimento que propunham para a Guiné e Cabo Verde. Nesses documentos estão plasmados o essencial do(s) rumo(s) que seria(m) seguramente trilhado(s) no pós-independência. De resto, a experiência tinha começado nas zonas controladas pelo PAIGC.
"Para Cabral, um regime de partido
único não garantia a democracia do
sistema político" 
Porque nunca se cumpriu o slogan do PAIGC que a libertação significa "poder nas mãos do povo"?
Não se pode dizer que não se cumpriu. O que é que significa afinal "poder nas mãos do povo"? Este assunto foi abordado por Amílcar Cabral em 1972, aquando da sua visita aos Estados Unidos. Mostrava-se então preocupado com a democraticidade e legiti-midade do partido único, o que de certa maneira revela que estava preocupado com o futuro. Para ele um regime de partido único não garantia a democraticidade do sistema político. Por isso mesmo admitia, numa primeira fase, a necessidade de criar órgãos que garantissem a representatividade do povo, de modo a que tivesse consciência de que era "dono do seu próprio destino". Por exemplo, a Assembleia Nacional Popular... Hoje há grandes avanços nesse sentido. Há partidos, há eleições, há parlamentos... Mas também acredito que haja aspectos que é preciso aprofundar. Mas há mais. Cabral acreditava que dada a marcha dos acontecimentos na África do seu tempo chegaria um tempo em que o povo tomaria o poder. Considerava isso uma fatalidade. Na minha perspectiva esta análise de Cabral é interessante se for transposta para os tempos que correm. Já reparou que as pessoas estão cansadas de alguma classe dirigente? E isso não é um fenómeno exclusivamente africano, mas transversal à sociedade global. Já viu o que aconteceu na África do Norte com o povo na rua. Até se deu ao luxo de dizer que não queriam político A, B e C... Se a classe política continuar a governar sem resolver os problemas do povo e com falta de ética, ainda no nosso tempo, cumprir-se-á à escala planetária o vaticínio de Cabral
Este tema não é consensual entre os biógrafos. Para si, acha que Cabral queria conferir um carácter estratégico e prospectivo às suas reflexões políticas e económicas? 
Seria extemporâneo estar a fazer esse tipo de juízos. Não acredito que houvesse intencio-nalidade a esse respeito.
Não haveria um pensamento demasiado optimista em Cabral sobre o futuro da Guiné e de Cabo Verde como países independentes?
Penso que não. O optimismo relativamente ao futuro da Guiné e de Cabo Verde advinha das razões objectivas e subjectivas que estiveram na génese do fenómeno libertador. A libertação nacional é um processo que nasce das convicções pessoais e colectivas e isso envolve também uma certa dose de optimismo relativamente ao futuro, à construção de uma nova sociedade e de um Homem Novo. Os países podem é demorar muito tempo a atingir esses objectivos. Ainda assim, isso não significa que não fossem objectivos exequíveis.
É hoje Cabral um herói esquecido?
Não. Antes pelo contrário. Como sabe continua a despertar muitas paixões, grandes debates e intensas reflexões. É talvez um dos poucos líderes desaparecidos que continua a despertar tanto interesse. E um dos exemplos que nos permite acreditar que não será esquecido tão cedo é o facto de os jovens na actualidade estarem a criar grupos de debate e de reflexão em torno da sua figura e da sua obra.

28-1-2012, 12:02:55
Jorge Montezinho, Redacção Praia
fonte: expressodasilhas