Monumento Revolta Ribeirão Manuel

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

DECLARAÇÃO DE ASSOMADA ABRE NOVOS CAMINHOS



Conferência internacional reconhece o empenhamento da Câmara Municipal de Santa Catarina na prossecução de projectos museológicos e patrimoniais e regista o surgimento do primeiro núcleo de membros do MINOM no continente africano
Assomada, 31 de Outubro – Após cinco dias de intensos trabalhos, de viva participação cidadã e de debates que marcaram o início de um novo ciclo na caminhada da museologia em Cabo Verde, encerrou em alta a XIV Conferência Internacional do Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM), que pela primeira vez se realizou em África e em terras cabo-verdianas.
Iniciando os trabalhos com a realização de um Curso de Património, Museologia e Desenvolvimento, o evento organizado pelo MINOM e a Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago, deu vez e voz ao ousado sonho do edil Francisco Tavares no sentido de instituir uma Rede Museológica Concelhia, tendo por base o Cine Clube, o Museu da Tabanca, Ribeirão Manuel, Ribeira da Barca e a Casa de Amílcar Cabral, entre outros, fazendo das memórias colectivas e da história de Santa Catarina um museu vivo de trajectórias humanas, assente num novo conceito de museologia em que as pessoas são elemento central. Ou seja, subordinado ao princípio de que o ser humano é mais importante que o património e razão essencial da sua preservação.
A conferência terminou no último sábado (29), com a entrega de diplomas aos participantes do curso, a aprovação em assembleia da Declaração de Assomada (ver mais abaixo) e uma emblemática visita à Cidade Velha, berço da Nação cabo-verdiana, onde os participantes do curso foram recebidos ao som das batucadeiras e com a presença do edil de Ribeira Grande de Santiago, Manuel de Pina.
A Declaração de Assomada é um importante documento orientador da estratégia museológica do concelho de Santa Catarina de Santiago, que recolhe contributos de grandes especialistas internacionais e a participação da comunidade, resultante de um processo de socialização do projecto de rede concelhia que agora se inicia, recebendo o aval e a colaboração directa de uma prestigiada organização internacional, o MINOM.
O evento assinalou, ainda, a adesão dos primeiros membros do MINOM no continente africano, cujo primeiro é Francisco Tavares, o presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago.
DECLARAÇÃO DE ASSOMADA
Nós os participantes reunidos na XIV Conferência Internacional do MINOM-ICOM, realizada em Assomada nos dias 24, 25, 26, 27, 28 e 29 do mês de Outubro do ano de 2011, promovida com o apoio da Câmara Municipal do Concelho de Santa Catarina de Santiago.
RECONHECEMOS que a XIV Conferência Internacional do MINOM-ICOM realizada em Assomada constitui um importante marco na trajectória do MINOM
RECONHECEMOS os avanços que nos últimos anos foram realizados em Cabo Verde, relativamente às questões da museologia e da valorização do património em geral;
RECONHECEMOS também que a conjuntura actual impõe outras formas de relacionamento entre os Estados, provocando assim, mudanças em termos comportamentais com reflexos em diferentes sectores considerados importantes, em especial o Património.
RECONHECEMOS ainda o apoio e o envolvimento das diversas instituições de ensino nomeadamente da Universidade de Santiago, da Universidade Lusófona de Humanidades e tecnologias, do Liceu Amílcar Cabral e da Escola Técnica Grão Duque Henri no que se refere às questões museológicas e patrimoniais;
RECONHECEMOS o esforço e o empenhamento da Câmara Municipal de Santa Catarina na realização da conferência e no desenvolvimento de projectos museológicos e patrimoniais;
RECONHECEMOS finalmente o valor estratégico do património e dos museus como direitos de todos os cidadãos e como recursos importantes para a construção de um futuro melhor e com mais qualidade de vida.
CONSIDERAMOS as potencialidades existentes em Cabo Verde e as boas relações de cooperação entre o poder central e o poder local
CONSIDERAMOS também a inexistência de políticas públicas para a área dos museus e o interesse da comunidade para estas questões;
CONSIDERAMOS que a necessidade da salvaguarda dos museus e dos patrimónios são tão importantes quanto a saúde de qualquer indivíduo;
CONSIDERAMOS finalmente que foi apresentado, debatido e aprovado o projecto para a implantação da Rede Museológica e Patrimonial do Concelho de Santa Catarina e que a construção de uma Rede não se faz por imposição, mas por adesão e que o desenvolvimento só funciona com o envolvimento de todos.
Com base nestas considerações e reconhecimentos RECOMENDAMOS:
1 – A realização de um diagnóstico participativo para o melhor conhecimento da realidade museal e patrimonial do Concelho.
2 – Que as autoridades centrais e locais quadro legal e institucional adequadas para a protecção, preservação e valorização dos museus e patrimónios.
3 – Que a Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago promova e coordene a implementação do Comité de Pilotagem da Rede Museológica e Patrimonial do município, envolvendo a Universidade de Santiago e outras instituições de ensino dos diferentes níveis, bem como associações, centros culturais, organizações não governamentais, pesquisadores, especialistas e outras entidades da sociedade civil.
4 – A criação de uma política pública para museus e património que contribua para a preservação e valorização dos mesmos e para o desenvolvimento socioeconómico de Santa Cataria.
5 – Que os museus, as instituições de património e os centros culturais desenvolvam permanentemente planos, programas e projectos com as comunidades onde estão inseridos.
6 – A continuidade dos esforços realizados para a formação de recursos humanos especializados no campo da museologia e do património.
7 - A destinação de orçamento público para a implantação de políticas públicas que contribuam para a dignidade social, o direito de cidadania e a melhoria da qualidade de vida das comunidades locais. Museus, memórias e patrimónios são direitos de todos.
Por fim felicitamos e encorajamos a nova direcção da MINOM, bem como os representantes da Irlanda do Norte que vão acolher a próxima conferência internacional
Regozijamo-nos pela expressiva adesão de cabo-verdianos ao MINOM
Cidade de Assomada, 29 de Outubro de 2011.
fonte: Liberal




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MUNDO DA MUSEOLOGIA DE OLHOS POSTOS NA ASSOMADA




Assomada, 28 de Outubro – Começou ontem (27), na cidade de Assomada, a XIV Conferência Internacional do Movimento Internacional da Nova Museologia (MINOM), que se prolongará até amanhã, 29 de Outubro – um dos maiores eventos da área da museologia jamais realizado em Cabo Verde.
Subordinada ao tema “Sociomuseologia / Altermuseologia -Processos de Solidariedade”, a conferência do MINOM, em parceria com a Câmara Municipal de Santa Catarina e o apoio da Universidade de Santiago, da Universidade Lusófona de Cabo Verde e de Lisboa, iniciou os seus trabalhos com uma abertura solene, em que usaram da palavra o edil de santa Catarina, Francisco Tavares, Mário Moutinho, do MINON e o presidente do Instituto da Investigação e do Património Cultural (IIPC), em representação do ministro da Cultura.
Francisco Tavares, começou por saudar o MINOM pela escolha da sua cidade para a realização desta conferência internacional e “a oportunidade para que o projecto da rede de museologia de Santa Catarina, que é o primeiro do género em Cabo Verde, passe pelo crivo dos cientistas e especialistas de várias paragens do globo”, esperando que “seja analisado à luz dos mais avançados conhecimentos” e que tenha “em consideração, também, as melhores práticas”.
Aludindo ser uma “ousadia” tal projecto, Tavares considerou a iniciativa “uma perspectiva avançada de descentralização no domínio da cultura”, enfatizando ter o seu concelho “um potencial histórico e patrimonial que merece ser valorizado”, nomeadamente, “o cinema de Assomada, o Centro Cultural Norberto Tavares, a revolta de Ribeirão Manuel, o porto da Ribeira da Barca, as casas dos Morgados, a casa de Amílcar Cabral, o Pelourinho de Assomada, a Casa Lubrano, quanto também alguns edifícios religiosos como a Capela de Chã de Tanque”.
O presidente da câmara revelou aos presentes um sonho antigo decorrente do que os santacatarinenses representam e deram a Cabo Verde, “que Santa Catarina seja um centro importante da Museologia nacional, da História e da Cultura”, que este pode ser o destino de Assomada: uma capital cultural. E, nesse sentido, anunciou a intenção de criar uma rede das cidades de Cabral, “Bafatá, onde nasceu; Assomada, capital do concelho onde viveu parte da sua infância; Mindelo, onde fez os estudos secundários e estudou futebol; Lisboa, onde fez os estudos superiores; e Angola, onde exerceu enquanto engenheiro agrónomo”. E essa aposta no turismo cultural e histórico, mas também museológico, constitui – segundo Francisco Tavares – uma oportunidade para que, no futuro, “as pessoas venham dos quatro cantos do mundo a Santa Catarina”, concretamente para “conhecer o percurso de Amílcar Cabral” e “para conhecer melhor as revoltas que deram em Cabo Verde o seu contributo para a emancipação dos cabo-verdianos”, mas também para conhecer a tradição das feiras de Santa Catarina, a história da agricultura nacional, a música e os seus intérpretes, “para favorecer a promoção da Tabanca a património nacional e da Humanidade” e “para conhecer melhor os fundamentos e processos que deram origem à raça badia, em oposição aos sampadjudos”, factos característicos da diversidade e identidade cultural cabo-verdianas.
Numa intervenção recheada de referências às tradições e história de Santa Catarina de Santiago, Francisco Tavares referiu pretender que a rede museológica leve turismo ao concelho, “fomente o emprego, a distribuição do rendimento, aumente a auto-estima dos santacatarinenses, o rendimento das famílias e contribua para a redução da pobreza”.
Esperando que a conferência seja um contributo para o Movimento Internacional da Nova Museologia, Tavares finalizou com um apelo: “Pretendemos que saia daqui a Declaração de Assomada, que seja o mecanismo público de divulgação dos resultados desta conferência e de afirmação progressiva do MINOM, mas também o testemunho da sua passagem por Cabo Verde e, sobretudo, mecanismo para facilitar o controlo social das decisões aqui tomadas”.
Após as intervenções a conferência dividiu-se em dois grupos de debate sob a orientação dos especialistas brasileiros Mário Chagas e Paula Assunção. Já pela noite, foi a vez de reunir a Assembleia-geral do MINOM, tendo na agenda a eleição de novos corpos gerentes.
O dia de hoje é visto como o momento alto da conferência, com a apresentação pública da Rede Museológica de Santa Catarina, importante documento da lavra do professor Henrique Coutinho Gouveia.

fonte: Liberal

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pinturas roubadas de Picasso são encontradas em Belgrado




Dois quadros de Picasso que foram roubados de uma exposição na Suíça em 2008 foram localizados em Belgrado, segundo informou esta quarta-feira o ministro do Interior sérvio, Ivica Dacic.
As peças são «Tête de cheval», de 1962, e «Verre et pichet», de 1944, avaliadas em milhões de dólares, segundo declarou Dacic à agência de notícias Tanjung.
Os dois quadros foram roubados em Fevereiro de 2008 de uma exposição no centro cultural da localidade suíça de Pfaffikon, embora sejam propriedade do Museu Sprengel de Hannover, na Alemanha.
Dacic declarou que as pinturas foram localizadas pelo serviço sérvio de luta contra o crime organizado em cooperação com a Polícia suíça. A Suíça solicitou à Sérvia a devolução dos quadros.
Fonte: Diário Digital
e pportodosmuseus

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

César Monteiro: De onde veio e para onde vai a música cabo-verdiana?




"Música Migrante em Lisboa - Trajectos e Práticas de Músicos Cabo-verdianos" é o título da tese de doutoramento do sociólogo César Monteiro, agora transposta na íntegra para livro, pela Editora Mundos Sociais. A obra foi apresentada em Lisboa e o evento serviu de pretexto para uma longa conversa sobre este estudo e sobre o panorama da música cabo-verdiana em geral. Uma conversa, sempre sob o olhar da sociologia.

Expresso das Ilhas - Música e Migração, são os dois grandes fenómenos contemplados nesta obra. Como se relacionam?
César Monteiro - Eu costumo dizer que a migração e a música constituem um casal muito feliz e muito interessante. Os emigrantes, quando partem, não vão sozinhos: levam consigo a sua bagagem cultural, onde também está a música. De facto, a música constitui uma das marcas mais visíveis e poderosas da diáspora cabo-verdiana. É um dos três grandes marcadores da identidade cultural na diáspora, a par com a Língua e a Culinária.
Trata-se, pois, de um fenómeno congregacional e organizacional, com um poder forte e em contexto migratório, a música, assume um importante papel de retenção da tradição e de inovação.
A música migrante é enraizada na matriz musical em Cabo Verde, mas é depois recriada, reconstruída, reelaborada e reinventada em contexto migratório específico, a partir da sua desterritorialização.
E não podemos esquecer que a música assume também propriedades terapêuticas, tem um efeito emocional.
A que se assiste no caso concreto da Área Metropolitana de Lisboa (AML), que foi a área mapeada?
A partir, sobretudo, dos anos 60 constitui-se em Portugal uma comunidade de migrantes cabo-verdianos que se foi avolumando - chegou a ser a maior comunidade imigrante nesse país. Essa comunidade foi-se tornando cada vez heterogénea, isto é, foi-se diferenciado do ponto de vista da sua estrutura e composição sociais. Isso levou a que, hoje, os cabo-verdianos em Portugal sejam mais uma população que uma comunidade. Do ponto de vista sociológico uma comunidade pressupõe uma partilha não só em termos de valores, mas também em termos da estratificação social. Quais são os pontos de contacto, de convergência ou interesse entre um médico e por exemplo um trabalhador da construção civil cabo-verdianos? Mas há uma convergência, há uma partilha de identidade quando entra a cultura no meio. Neste contexto, a música constitui, por um lado, uma ferramenta de união e forma de afirmação da própria identidade cultural. Através da música os nossos emigrantes conseguem funcionar melhor como grupo e são mais comunidade e muito menos população emigrante.
Por outro, não menos importante, a música é, como referido, uma ferramenta de mudança.
Mantendo a matriz tradicional, a música migrante verifica-se mormente ao nível das letras, do conteúdo, mas também ao nível da sonoridade, dos arranjos.
Veja-se o caso das batucadeiras da Cova da Moura, que está documentado no livro: essas mulheres têm a capacidade de compor letras que retratam a situação que por lá vivem, embora respeitando a melodia e o ritmo do batuque de Santiago.
Fernando Luís Machado escreve no prefácio da sua obra que esta é "um retrato analítico completo do campo musical cabo-verdiano, feito do lado da produção". Em que consiste esse campo?
Aquilo que eu chamo de campo musical - seguindo a concepção de Pierre Bordieu, no seu sentido mais lato - é o espaço de congregação e de concentração dos protagonistas, dos actores sociais que intervém em contexto migratório. Aí vamos encontrar os produtores musicais, os mediadores e os consumidores. Este estudo concentra-se na primeira dimensão, concentra-se na perspectiva da produção.
Devo, no entanto, dizer que este é um estudo que continua em aberto. Já comecei aquilo a que se poderia chamar a segunda parte, que aprofundará aspectos ligados ao funcionamento do mercado de trabalho dos músicos imigrantes na AML.
Falando sobre este "primeiro" livro do estudo, através dos inquéritos e das 102 entrevistas que realizou traça o perfil dos actores do campo. Como se caracteriza o campo musical da AML?
O campo musical cabo-verdiano em Portugal está estratificado em função do sexo, idade, rendimento, etc.
É um campo musical diversificado, heterogéneo, em que se verificam processos de competição, principalmente entre os chamados "instalados" e os que "não instalados".Mas dentro dessas dinâmicas internas há também processos interessantes de cooperação.
Outra coisa que constatei é que apesar da hierarquização (instalados, jovens, etc) prevalece no campo musical um certo amadorismo. Ainda não há uma verdadeira cultura profissional nos músicos. Isso traduz-se na falta de capacidade de cumprimento de normas internas (todos os campos têm normas, note-se). Não cumprem horários, não se preocupam com a postura no palco, não vão aos ensaios. Há excepções, mas este é um problema que afecta e são os próprios músicos que falam nisso.
Graças ao questionário usado pude chegar a algumas constatações que ainda não se tinham feito. Por exemplo, este universo é juvenilizado, masculinizado e com escolaridade relativamente elevada do ponto de vista sociodemográfico.
É um universo musical relativamente jovem que se vai renovando continuamente porque a renovação dessa categoria social também tem a ver com a renovação da própria comunidade/população emigrante.
Neste momento há uma franja muito significativa de músicos com formação musical, algo que não se via antes, é um fenómeno começa a partir de 1996.
Ainda há muitos músicos que tocam de ouvido, mas esses estão condenados à história. A tendência é para que cada vez mais, os músicos da nova geração adquiram formação na área musical, nomeadamente em conservatório.

"As mulheres estão na vanguarda da interpretação, mas não têm poder. É um paradoxo."

Disse que é um dos aspectos desse universo é a forte presença masculina. Mas alguns dos grandes intérpretes são mulheres.
A retenção musical em Portugal é assegurada pelas mulheres, mas como tenho dito é uma população masculinizada, mais masculina que feminina - e em Cabo Verde passa-se o mesmo.
As mulheres estão na vanguarda do ponto de vista da interpretação, mas não têm poder. São eles que tem os recursos para projectar a música. Há aqui, portanto, um paradoxo.
Repare que este campo musical é híbrido, assimétrico. Essa assimetria tem a ver com o facto de ser dominado por um punhado de actores, que decidem quem trabalha ou não. Os que dão as cartas são meia dúzia e dominam o mercado de trabalho. E aí não se encontram mulheres.
No seu livro aborda também a questão dos descendentes de cabo-verdianos, tendo como caso de estudo a comunidade do Alto da Cova da Moura. Como é que estes filhos de emigrantes "vivem" a música?
Os descendentes de emigrantes têm um comportamento ambíguo e ambivalente. Eles não se sentem portugueses, mas também não se sentem bem em Cabo Verde. Dizem que não são aceites quando vêm cá e muitos deles nunca puseram cá os pés. A contribuição da diáspora para a evolução da música cabo-verdiana é diferenciada, em função dos próprios contextos específicos das diversas comunidades de emigrantes em que ela se verifica, sendo paradigmáticos os casos da Holanda (linha mais inovadora) e Portugal (linha mais tradicional com reelaborações, é certo).
E, devo referir os festivais musicais, por exemplo, que são grandes responsáveis pela grandeza da música de Cabo Verde, que deu um salto enorme.

"Não há uma música cabo-verdiana autêntica, genuína, na verdadeira acepção etnomusicológica"

Que influência há, então, entre a música migrante e música que se produz em território nacional?
As influências são recíprocas. Não se pode fazer uma análise rígida e separada das duas componentes. Estas complementam-se e há um intercâmbio permanente. É certo que a diáspora tem contribuído, e de que maneira, para o avanço da musica cabo-verdiana. Temos hoje, graças a ela, uma música mais mestiça, mais crioula, mais rica, mais heterogénea, mais moderna. Mas também é verdade que a música que se faz cá tem dado uma contribuição igualmente enorme e de grande valor para a música cabo-verdiana.
Assiste-se, por outro lado, à emergência de novos géneros musicais que não são tipicamente cabo-verdianos, ou seja, que não são produzidos em Cabo Verde, mas que acabam por integrar o património musical cabo-verdiano.
Esse binómio música/fluxos migratórios é, pois, importantíssimo.
Há renovação musical por causa dos fluxos, se não houvesse a música teria ficado estagnada. Os principais indicadores da evolução da música cabo-verdiana expressam-se sobretudo ao nível dos arranjos, das melodias, do acompanhamento, dos ritmos, bem como da introdução de novos instrumentos, de novos acordes, que se traduzem na emergência de novas sonoridades e numa abordagem diferente.
Na verdade, não há uma música cabo-verdiana autêntica, genuína, na verdadeira acepção etnomusicológica. Nunca a houve. Aliás, pela nossa posição geoestratégica, pelo nosso passado, pela nossa história que resulta de encontro de culturas, e pela nossa cultura propriamente, sempre tivemos uma música sincrética, totalmente aberta ao mundo e que recebe contribuições de todas as latitudes. Não há uma música estática, tanto mais que a sociedade cabo-verdiana também não o é. Pelo contrário, é uma sociedade dinâmica.

"Novos géneros musicais que não são tipicamente cabo-verdianos acabam por integrar o nosso património musical".

Mas há uma preservação da tradição musical cabo-verdiana em Portugal. Considera que há mais purismo na música feita lá?
Não sei se será bem isso. O que há é um fenómeno sociológico muito interessante. O facto de haver esse afastamento físico, faz com que as pessoas se refugiem na música tradicional cabo-verdiana e a valorizem mais do que aqueles que se encontram aqui. Repare a musica também está ligada a saudade. E o batuque, por exemplo, tem uma dimensão de saudade muito forte. São as pessoas que vivem lá, os que são obrigadas a transportar-se para as suas origem para poderem de alguma maneira reencontrar-se consigo próprias.
Sendo assim, a música tradicional cabo-verdiana não é estática e, por isso, tem evoluído e recebido influências várias sem, contudo, fugir à matriz musical.
A meu ver, é preciso desconstruir tabus, preconceitos e prejuízos em relação à música, defendendo uma nova abordagem mais aberta, sincrética e muito menos purista, ao serviço da identidade nacional e do desenvolvimento do país.
A música cabo-verdiana passa, nos últimos anos, por um interessante processo de ebulição, efervescência e renovação, oscilando entre a qualidade e mediocridade, de acordo, aliás, com o sagrado princípio e sempre actual da selecção natural de Darwin.

Tem insistido no importante papel da investigação sociológica a nível musical em Cabo Verde. Por quê essa importância?
A música está a desenvolver-se em processos muito rápidos. É fenómeno complexo.Cabo Verde é um país de mestiçagem cultural, em permanente evolução, que também se traduz de forma e clara e inequívoca na música. De igual modo, Cabo Verde é um país de identidades culturais híbridas e sincréticas. Mais, a natureza sincrética e mestiça da sociedade cabo-verdiana faz com que a sua cultura identitária e musical seja aberta, plástica, desterritorializada e relativamente transnacional.
A classificação musical, ou seja, a avaliação daquilo que é ou não é música cabo-verdiana não pode, nem deve continuar a ser feita a partir de padrões ou parâmetros musicológicos rígidos e de conveniência, excluindo, inclusive, interessantes géneros ou formas musicais produzidos em contexto migratório e sem ter em conta as realidades sociológica, antropológica e etnomusicológica em que se manifestam.
Temos de ter gente a estudar isso. Um músico, por mais brilhante que seja ele não tem condições para estudar o processo musical.
Há que reforçar a componente da investigação, sobretudo da componente sociológica antropológica, preparar musicólogos, sociólogos na área da música e temos as universidades têm que se começar a virar para o ensino da música.
Na minha opinião, o maior desafio que se coloca à música cabo-verdiana é o aprimoramento técnico, o conhecimento e adequado e correcto que passe pela formação, e, por isso, não se pode deixar a música a mercê e por conta da espontaneidade, da inspiração e da improvisação.
É preciso educar, aprofundar, pesquisar correctamente a música cabo-verdiana, produzir mais e melhor. Em suma, é preciso mais estudo, mais formação, mais escola, mais conhecimento.
Há também necessidade de conhecimento estrutural e cada vez mais aprofundado do campo musical, nos seus diferentes matizes, dos seus actores e protagonistas, sejam eles produtores ou criadores (compositores e intérpretes), mediadores (agentes, intermediários) e consumidores, tanto na diáspora como em Cabo Verde, de forma articulada.

25-9-2011, 00:34:15
Sara Almeida, Redacção da Praia
fonte: Expressodasilhas

Abu Dhabi cancela contrato de construção de novo Guggenheim



A empresa Tourism Development and Investment Co (TDIC), detida pelo governo de Abu Dhabi, anunciou ontem o cancelamento do contrato de construção do novo museu Guggenheim, nos Emirados Árabes Unidos, desenhado por Frank Gehry. As obras vão parar temporariamente, voltando a adiar a inauguração do museu.
Em comunicado, a empresa governamental explica que todos os contratos com as construtoras estão suspensos, alegando uma revisão geral na estratégia e planeamento do trabalho, desde os orçamentos até à contratação de pessoal. Por saber ficou, para já, quando é que as obras serão retomadas.
(…)
No entanto, este é mais um episódio que assombra a construção do Guggenheim de Abu Dhabi, na ilha Saadiyat, ou, como é muitas vezes apelidada, “A Ilha da Felicidade”, que abrigará ainda uma filial do Museu do Louvre, do Zayed National Museum e ainda um campus da Universidade de Nova Iorque.
Em Março deste ano, um grupo de artistas, curadores e escritores ameaçaram boicotar o museu, lançando uma petição online que apelava à comunidade artística para não vender, nem ceder obras de arte para o Guggenheim, com o objectivo de alertar para as más condições em que os operários estavam a trabalhar na construção. Recentemente, também se falou que os arquitectos envolvidos no projecto queriam abandonar o cargo, por não estarem a receber o ordenado.
Fonte: Público, 24.10.2011
e pportodosmuseus

CIDADE VELHA PROJECTA-SE INTERNACIONALMENTE


Cidade Velha, 26 de Outubro – A rede “Sete Sóis, Sete Luas”, envolvendo dez países, nomeadamente, Brasil, Cabo Verde, Croácia, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Marrocos e Portugal, responsável pela organização do prestigiado festival internacional com o mesmo nome, passou a integrar a Cidade Velha, Património Mundial e berço da Nação Cabo-verdiana.



A Cidade Velha torna-se, assim, a segunda cidade cabo-verdiana a integrar a rede internacional, depois de Ribeira Grande de Santo Antão, acolhendo também, a par de mais de 25 cidades dos dez países referidos, a excelência dos espectáculos levados a palco pelo festival “Sete Sóis, Sete Luas”.

Já em 2010 o Festival de Nhô Santu Nome havia acolhido, por gentileza de “Sete Sóis, Sete Luas”, o grupo português Galundum Galandunai, que parece ter aberto a oportunidade agora concretizada.

A inclusão da Cidade Velha na agenda do festival abre enormes possibilidades de reconhecimento enquanto produto cultural, nomeadamente, através de vídeos promocionais produzidos por “Sete Sóis, Sete Luas”, a divulgar pelos países integrantes.

fonte: Liberal 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sal: Governo quer declarar Salinas de Pedra de Lume como Património Nacional



O ministro da Cultura, Mário Lúcio Sousa, que se encontra de visita à ilha do Sal para se inteirar in loco da situação da cultura, afirmou hoje que o governo pretende declarar Salinas de Pedra de Lume, como Património Nacional.
O ministro avançou que neste sentido, o governo vai abrir um processo de classificação imediato e cumprir com todas as disposições existentes na lei do Património, para o efeito.
Questionado se Salinas de Pedra de Lume vai com isso ser retomada a favor do Estado, o governante esclarece que não é preciso retomar porque a lei é clara nesse sentido.
Isto é, refere, quando há património construído que contém dados importantes para a memória, história e identidade do povo cabo-verdiano, a lei manda proteger.
Porém, segundo o governante, isso não significa confiscar nem nacionalizar, mas impõe uma preservação que depende do Estado.
Mário Lúcio vai mais longe, salientando que o propósito do governo, em concertação com a Câmara Municipal do Sal e técnicos, é propor Salinas de Pedra de Lume, a Património Mundial Natural.
"O que nós estamos a fazer neste momento é aplicar a lei. Já começamos esse processo de inventário de classificação. Ainda este ano de 2011, no que falta, vão ser classificados quatro centros urbanos no país, designadamente casco histórico do plateau, Mindelo, S. Filipe e a Nova Cintra, na Brava", frisou.
Nesta sua visita à ilha do Sal, além das Salinas de Pedra de Lume, colocou-se igualmente questões relacionadas com a Escola de Artes Tututa, Centro Cultural dos Espargos e de Santa Maria, Festival de Santa Maria, Festival de Cinema, campeonato de wind surf, no sentido de haver uma política concertada entre a cultura e o turismo, na ilha.
"Já que o Sal é uma cidade cosmopolita, trazer as nações do mundo para um encontro aqui na ilha do Sal, assim como os grandes eventos internacionais na área do cinema, da música... Que haja uma concertação de uma política definida entre o turismo e a cultura", defendeu, Mário Lúcio.
Nesse aspecto, segundo o titular da pasta da Cultura, havendo financiamento através do banco da cultura, dos patrocínios e da lei do mecenato, poder-se-á transformar a cultura como a maior oferta para o turismo na ilha do Sal.
"Para isso é necessário um investimento conjunto e é disto que estamos a tratar", afiançou.
No final da tarde de hoje, o ministro terá encontro com artistas e agentes culturais da ilha.
17-10-2011, 16:56:21
Fonte: Inforpress/ExpressodasIlhas

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia da Cultura já tem lema: “Furtuna di kada Um, Rikeza di Nos Tudu”


“Furtuna di kada Um, Rikeza di Nos Tudu” é o lema escolhido para comemorar o Dia Nacional da Cultura e das Comunidades, que se assinala a 18 de Outubro. Este ano a anfitriã é a ilha de São Nicolau, que acolherá actividades nas suas duas cidades.

As comemorações começam esta sexta-feira, 14, com o “Encontro dos Guardiões do Património”, no qual cerca de 40 crianças do 7º ano, guiados por técnicos do IIPC terão a oportunidade de conhecer o património da ilha de São Nicolau.
No dia 18, data em que se celebra o dia Nacional da Cultura, será realizado o “I Fórum Cultural Nacional”. Esta actividade, que decorrerá até ao dia 21, terá como propósito analisar a cultura nacional, os seus rumos e a sua contribuição para o desenvolvimento local e nacional e recolher subsídios para uma melhor política e gestão cultural.
Pretende-se também promover o intercâmbio entre artistas, agentes, instituições e criar uma oportunidade para valorizar o património cultural de São Nicolau e de Cabo Verde, através de workshops, conferências, exposições de artes visuais, espectáculos de música, dança e teatro.
Comemorações em São Vicente
Além da ilha de São Nicolau, o “Dia Nacional da Cultura” é comemorado em outros cantos do país. Em São Vicente, neste domingo, 16, a partir das 8h30, haverá um “Mini Circuito Cultural na baixa do Mindelo”, onde crianças poderão visitar alguns monumentos históricos da cidade e aprender sobre a história do património cultural mindelense.
No dia 18, a partir das 20 horas, o Centro Cultural do Mindelo acolhe um espectáculo de música protagonizada pelos jovens artistas do grupo “Noit D´Mindel”. No dia 20, será exibido o filme “Fragmentos de Mindelo”, realizado pelos alunos do curso de Especialização em Cinema e Audiovisual do M_EIA. E no seguinte, o grupo teatral do CCM apresentará a peça “Casa dos Bonecos”.
Fonte: A Semana

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

escravatura na revista (in)visível



A abolição da escravatura é, inegavelmente, um importante marco transnacional na lenta construção de sociedades mais justas. Séculos de debate culminaram na eliminação da escravatura das leis e constituições da maior parte dos países do mundo. Enquanto fenómeno, a escravatura mantém-se, todavia, como flagelo real, presente e invisível.
Hoje, numa sociedade fustigada pelo agudizar das desigualdades sociais, pelos desequilíbrios geo-financeiros entre Estados e pela perda de direitos de amplas camadas de população, parece revalidar-se o diagnóstico de António Vieira quando, há muitos séculos, fez notar o desequilíbrio dialéctico entre os “senhores, poucos” e “os escravos, muitos”. A palavra escravidão assume múltiplas e tentaculares acepções.
O apelo à participação que lançamos prende-se justamente com o modo como este tema, ‘escravatura’, evoca um passado que lhe ditou a abolição, interpelando simultaneamente um presente que o relança e redefine. Do tráfico de seres humanos às migrações clandestinas, em fenómenos legíveis a partir do desfavorecimento económico, exploração sexual, invisibilidade(s) sociais… reclama-se visibilidade para uma temática que parece ter regressado, definitivamente, dos anais da história passada para o quotidiano das estórias presentes.

Outras informações:
A Revista (In)visível aceita artigos científicos, contribuições fotográficas, textos poéticos ou prosa originais, entre outros.
A Revista (In)visível publica trabalhos originais em Português.
Na apresentação dos originais, devem respeitar-se as seguintes instruções:
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fonte: buala

Cultura: Portugal e Cabo Verde avaliam protocolo de cooperação




O secretário de Estado da Cultura de Portugal reuniu-se esta terça-feira em Lisboa com o ministro cabo-verdiano da Cultura, Mário Lúcio, para estudar um protocolo de colaboração entre Portugal e Cabo Verde nas áreas do livro, língua, património e artes.
"Existem projectos comuns entre Portugal e Cabo Verde que estão paralisados há vários anos e que agora poderão ser reactivados. Um deles será necessariamente a Feira do Livro, que este ano terá uma dimensão especial e a participação de empresários portugueses, de agentes literários internacionais e de autores de vários países de Língua Portuguesa", disse hoje o secretário de Estado português, Francisco José Viegas, em comunicado enviado à Lusa.

O responsável referia-se à Feira do Livro de Cabo Verde, que se realiza em Novembro na Cidade da Praia, na cidade do Mindelo e em outros pontos de Cabo Verde, com a colaboração da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB), do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) e de entidades privadas.

Prevê-se, no decurso da feira, a assinatura dos acordos de cooperação entre os dois países nas áreas referidas - livro, língua, património e artes -, indica a Secretaria de Estado da Cultura, acrescentando que outros projectos serão futuramente incluídos nestes acordos, na área da música e do seu ensino e na área do teatro.
5-10-2011, 10:32:17
Fonte: Agência Lusa/Expresso das Ilhas

Produtos de Calheta do Maio em exposição no CCM


Trabalhos em metal, pedra calcária, búzios, coco, contraplacado, miolo de acácia, costura, tecelagem e calabedótche fazem a “Exposição de produtos de Calheta do Maio”, que será inaugurada esta sexta-feira, 14, no Centro Cultural do Mindelo.


A mostra, que estará aberta ao público durante dois dias, é organizada pelo Atelier Mar e produzida por 12 artesãos da zona de Calheta do Maio que receberam formação na área de artesanato entre Junho e Agosto deste ano, primeiro na sede da ONG, em São Vicente, e depois na terra natal.
A exposição é parte do Projecto de Revitalização do Artesanato da Calheta do Maio, cujo alvo final é a abertura de uma oficina de artesanato contemporâneo para comércio no mercado nacional.
Além dos artesãos, foram envolvidas também 10 crianças do Ciclo Básico (6ª classe), no quadro do programa educativo experimental de sensibilização tecnológica para o artesanato da Escola de Calheta.
Co-financiado pela CMM e Cooperação Espanhola, o projecto integra o Plano Municipal de Desenvolvimento do Município do Maio e foi concebido e realizado pelo Atelier Mar em parceria com o Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura do Mindelo (M_EIA).

Santo Antão: “Rota da Morabeza” para animadores turísticos



Melhorar a vida das populações através da troca de experiências. O primeiro passo para concretizar esta ideia é a formação de animadores turísticos, uma das iniciativas do programa "Rota da Morabeza" promovido pela Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte (Portugal), a Câmara da Ribeira Grande e a Associação AmiRibeirão.


Social, cultura, turismo, formação profissional, empreendedorismo, produtos locais e artesanato são as áreas elencadas para o intercâmbio de informações e experiências entre a Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte (ADIRN), a Câmara da Ribeira Grande e a Associação AmiRibeirão.
O coordenador desta associação, o engenheiro Jorge Rodrigues, informa que o propósito é criar uma rede de empresas para desenvolver e comercializar produtos dos territórios envolvidos, complementar e diversificar a oferta de cada um, qualificar os recursos humanos e internacionalizar as empresas.
E ainda, prepará-las para integrar a marca Worl Adventure, promover e comercializar os produtos locais dos dois países. “Na área da qualificação dos recursos humanos, terminam hoje em Santo Antão acções de formação profissional, com vista a melhorar as competências dos animadores turísticos”, indica.
São as primeiras Jornadas Técnicas de Animação Turístico-Desportivo, destinadas a 18 formandos de Santo Antão, entre os quais empresários de animação turística, colaboradores de empresas do ramo, técnicos dos serviços oficiais e colaboradores das unidades hoteleiras.
Os formandos vão se inteirar de temas como animação turística e turismo activo, desenvolvimento local, ambiente, perfil e competências do animador, organização de produtos turísticos, desporto de aventura, de entre outros.
A organização deste evento prevê realizar novas formações, nomeadamente jornadas técnicas de socorrismo e resgate e de animação turístico-desportivo na ilha do Sal, em Novembro de 2011 e Janeiro de 2012, respectivamente.
fonte: A Semana

domingo, 9 de outubro de 2011

Dia Internacional da Música passa em branco no arquipélago

No país que deve à apreciação da sua música além-fronteiras, a quase totalidade do seu reconhecimento a nível internacional, pouco ou nada se fez para assinalar o dia 1 de Outubro. Das entidades oficiais na capital, apenas um breve comunicado e no Mindelo, tida como capital da cultura e terra de Jotamont, que nasceu no mesmo dia, o Governo local praticamente ignorou a data.
O Dia Mundial da Música foi instituído em 1975 pelo International Music Council, uma organização não-governamental fundada em 1948 sob o patrocínio da UNESCO. Pretendia-se, assim, promover os valores da paz e da amizade por intermédio da música. Hoje, e passadas mais de três décadas, a data continua a ser assinalada em todo o planeta.
No dia 1 de Outubro, com o objectivo de promover a música e os talentos da comunidade cabo-verdiana realizou-se, na sua 2ª edição, o Concurso "Vozes da Diáspora", no Teatro Tivoli, em Portugal.
Rosalina Assanali, Catarina Reis, Érica Fernandes, Romeu Di Lurdes e Ismael Gonçalves deram voz ao concerto ‘Acústico' proporcionando uma viagem ao Cabo Verde Antigo e acústico do séc. XIX e dos nossos dias, recordando, no Dia Mundial da Música, a riqueza de um dos bens mais preciosos deste arquipélago.
Cá dentro as festividades foram bem mais tímidas. No site do Governo de Cabo Verde, a data foi lembrada através de um comunicado do Ministério da Cultura.
"A música é um espaço de celebração do amor, de crítica social, de exaltação da cultura, de afirmação da língua materna, de construção de uma poética cabo-verdiana e desempenha, hoje, o papel de uma autêntica embaixadora de Cabo Verde no Mundo", pode-se ler no documento.
Quiçá consciente que a música, como embaixadora de Cabo Verde além-mar, poderia ofender-se com um simples comunicado, a tutela da Cultura adiou as bodas para o próximo ano.
"O Ministério da Cultura, em nome do Governo, vai associar-se à Cidadania para, no próximo ano, render uma vibrante e merecida homenagem à música cabo-verdiana, por ocasião do Dia Nacional da Cultura, através de uma grande gala musical".
Na ilha do Monte Cara, considerada a capital da cultura, e que viu o seu expoente máximo anunciar o abandono dos palcos, Cesária Évora que sofreu recentemente dois avc's, apenas concertos privados e habituais de fim-de-semana, sem que os organismos oficiais tivessem marcado qualquer tipo de evento para assinalar a efeméride.
No próximo dia 18 celebra-se o Dia Nacional da Cultura, instituído pelo Governo há seis anos atrás, no aniversário de Eugénio Tavares.
O Centro Cultural do Mindelo preparou para este mês de Outubro um vasto programa que, curiosamente, apenas teve inicio a 3 de Outubro, dois dias depois da data, e vai até ao dia 30 assinalando, no dia 18, com um espectáculo de música, a celebração do Dia da Cultura.

Fonte: Expressodasilhas

9-10-2011, 21:44:57
Susana Rendall Rocha, Redacção Mindelo

José Gomes: A ressurreição do Cine-Teatro da Praia é urgente

O arquitecto José Gomes conhece a cidade da Praia como poucos: trabalhou ligado à CMP no plano de salvaguarda do Platô e na elaboração do plano director municipal da cidade da Praia em suas diversas etapas e coordenou ultimamente o projecto Monte Vaca/Ribeira Laranjo e São Francisco, no âmbito do novo Plano de Desenvolvimento Urbano da Praia. Na sua opinião, não foi a falta de planos que conduziu ao caos urbanístico que ainda se vive na cidade da Praia, mas sim a duplicação de competências entre o governo central e a autarquia que ficou com pouca margem para gerir a cidade. José Gomes aborda nesta entrevista os grandes problemas que afectam a cidade da Praia, como sejam a construção clandestina, os bairros espontâneos, o projecto Casa para Todos, a derrama municipal, a Cidade Administrativa que prefere chamar com menos pompa um centro administrativo. O urbanista expende igualmente a sua opinião sobre os programas de requalificação da Cidade da Praia. "A única área passível de ser requalificada na Praia é o Platô", afirma, acrescentando que para o resto do tecido urbano só se pode falar em reconversão.
Expresso das Ilhas - A Praia teve um crescimento acelerado a partir dos anos 1970. Podia traçar o percurso deste crescimento que parte de um pequeno núcleo que era o Platô e mais alguns bairros até chegar a uma cidade que alberga cerca de 130 mil pessoas?
José Gomes - Eu diria que este crescimento registou-se em dois períodos: um que começa cerca de 1978 e outro a partir de 1990. Na verdade, a cidade da Praia, nos primeiros anos após a independência, resumia-se ao Platô, alguns bairros adjacentes como Lém-Ferreira, Paiol, Achadinha e alguma manchinha ainda na zona da Achada Santo António. Pela população, a Praia era a maior harmonia do mundo. O Platô, com a sua arquitectura genuína era um bairro extremamente agradável. Com o advento da independência, o fluxo populacional começou a se manifestar aceleradamente até estes últimos anos. Parece que nestes 3 a 4 anos é que esse fluxo tenta diminuir, mas já foi bem acentuado, por volta de 8 por cento ao ano. Já em 1990 quando regressei à Praia a maior parte do tecido urbano era de ocupação espontânea. A Câmara Municipal não tinha a menor condição de gerir a Cidade da Praia, porque havia uma duplicação de competências entre o governo central e a autarquia. Este facto foi, de resto, um handicap muito grande para a cidade da Praia. Nessa altura, começaram algumas novas urbanizações do Palmarejo e Achada São Filipe. Quer dizer, criação de solos que foram consumidos, num abrir e fechar dos olhos. E o que se verificou foi a continuação da ocupação espontânea, tanto por falta da capacidade do governo central como da Câmara Municipal de criar solos urbanos atempadamente face à procura dos imigrantes locais...
Foi a falta de planos conduziu ao caos urbanístico que se regista ainda hoje? 
Planos houve, mas sem capacidade de absorção das necessidades da população. Entrou em moda um loteamento, num lugar que começa a ser ocupado, em que se fazia um parcelamento expedito, mas não havia programação para colocação de energia e redes de água e esgoto. Não houve nada disso, porque a Câmara nada disso tinha para dar. Todas as redes de infraestruras, na Praia, sempre foram financiadas pela cooperação internacional. Mesmo os planos do Palmerejo, do Platô e da Achada São Filipe foram financiados pela União Europeia. De uma maneira estrategicamente errada, e sempre na onda do dado e recebido. Nunca o governo local, ou nacional se preocupou em priorizar a organização dos centros urbanos de Cabo Verde. Aparecia um dinheiro que era gerido pelo então ministério das Obras Públicas junto com as Câmaras e recentemente criou-se um novo ministério [do Ordenamento do Território] que também não é por aí que se vai resolver o problema...
Conforme dados da CMP, a Praia teve em 40 anos um crescimento de mais de 100 mil habitantes e portanto a planificação não acompanhou o ritmo desse rápido aumento demográfico...
Mas eles têm culpa, porque o problema não é a planificação. O problema não é fazer planos. O problema é conhecer a realidade através de informações concretas, fazer os planos e implementá-los. Para isso você tem que ter uma equipa muito grande, estruturada para implementar, seguir e controlar esses planos em vários níveis. Isso requer dinheiro, porque você tem que ter instrumentos novos que, aliás, nenhuma Câmara tem. Nenhuma Câmara tem um sector de planificação urbanística. Existem directorias técnicas que aprovam projectos e acompanham o dia-a-dia. Mas a implementação, o acompanhamento e essa equipa de planificação não existe. Não existe a planificação, nem existem os ingredientes necessários à implementação dos aspectos vistos na planificação.
Um dos grandes problemas da Praia é a construção clandestina. Como se pode pôr cobro a esta situação?
A construção clandestina não é nenhum bicho se sete cabeças. É você trabalhar num projecto concreto de habitação. Mas para isso você teria que ter um projecto habitacional para Cabo Verde. Teria que ter várias tipologias habitacionais, teria que ter um sistema financeiro habitacional específico, não indo à banca como se está a propor agora. Agora você constrói e cada um vai ao banco tomar dinheiro. Não é nada disso: você tem uma gama diversificada de clientela, desde aquele que pode pagar o alto padrão, até aquele que não pode pagar e que teria que ser subsidiado pelo Estado... Aliás, o problema da habitação espontânea tem a ver com a estruturação urbana: chegar nesses bairros, corrigir o que é absolutamente dado por perdido e dar a essa população condições legais, portanto segurança fundiária. Sem posse de terreno legalizado, ninguém está a fim de investir grandes coisas.
Ao ritmo que cresce a cidade da Praia, não seriam necessárias medidas de âmbito nacional para deter o fluxo em direcção à capital?
A questão política seria fundamental. Sem uma visão global do que seja uma capital não há plano que aguente. Já nos primeiros anos viu-se que o ritmo de crescimento era extremamente grande. Devia-se ter dado credibilidade aos planos. Mesmo que fosse um plano utópico, mas teria que ter havido, desde o início, a implementação, a credibilização de um projecto urbanístico futuro. Faltou realmente uma visão mais longínqua do que pudesse vir a ser a Cidade da Praia. Houve, é certo, nalguns planos dos anos 80 uns esquemas genéricos do crescimento da Praia, mas isto ficou no papel.
Não tendo a Praia nenhuma actividade produtiva especial com explica o fluxo crescente em direcção à capital? 
Nós não temos nenhuma indústria que justifique isso. Haverá alguma expectativa de elevação do padrão de vida, às vezes até de sobrevivência, mas a única actividade concreta que nós temos na cidade da Praia, tirando o funcionalismo público, é praticamente a construção civil. Você não tem nenhuma actividade produtiva que atraia mais mão-de-obra e a cidade da Praia gira tudo em torno das funções da capitalidade. É o governo central, é o governo municipal, é o corpo diplomático e os organismos internacionais. Em termos de produção mesmo, você vê que tudo o que consumimos aqui é importado.
A construção da Cidade Administrativa iria acentuar mais esses problemas?
É muita pretensão chamar aquilo de cidade, mas seria o chamado centro administrativo que no Brasil existe aos montes e onde qualquer cidade de porte médio tem o seu centro administrativo. Do ponto de vista físico, eu acho correcto porque permite poupar recursos financeiros que são utilizados para pagar as rendas dos edifícios. Entretanto, este plano vai de encontro à autonomia municipal e contra o espírito do municipalismo.
A CMP vai implementar um programa de requalificação urbana e ambiental que segundo os seus técnicos será um verdadeiro instrumento de intervenção, planeamento e gestão das franjas desagregadas e desqualificadas dos bairros da capital. Será essa a solução?
Bom, primeiro temos de ter em conta o aspecto erróneo que existe na utilização da palavra ‘requalificação'. A única área passível de ser requalificada na Praia é o Platô. Basta irmos ao dicionário para sabermos o que significa requalificação. Neste sentido, requalificação seria a reabilitação de áreas que já foram qualificadas: pelo seu ambiente de uma maneira geral e pelo seu conteúdo arquitectónico. Isto é válido para o Platô. Para o resto do tecido urbano da cidade da Praia, poderia haver sim uma reconversão urbana. Requalificação tornou-se moda. Há tempos fizeram a requalificação do bairro da Bela Vista, mas como é possível fazer a requalificação da Bela Vista? Trata-se antes da consolidação do tecido urbano com vias de acesso, com a lógica do sistema viário, com electricidade, água, esgoto e com o controlo das habitações. Isso sim. Requalificação fica limitada ao Platô e àquela área onde fica hoje o Arquivo Nacional que é uma zona que já teve história, com os seus cais, armazéns, etc. Agora, o que a CMP deve estar fazendo é uma tentativa de infraestruturação urbana e de ordenamento desses bairros espontâneos. Para o Platô fica realmente a requalificação o que é uma atitude muito bem-vinda, porque, mesmo na prática, é a primeira tentativa que eu vejo de uma gestão camarária de visualizar a cidade da Praia...
Que continua uma cidade às escuras. O facto de a Electra não conseguir resolver o problema do fornecimento de energia é também um problema do planeamento?
Numa planificação, a Electra, sabendo do crescimento populacional que vinha acontecendo anualmente na cidade da Praia, teria que projectar o futuro, todo o seu equipamento e todos os serviços que teria que prestar ao turismo, à indústria, às habitações singulares e colectivas. É essa falta de planificação que nos leva a não entender, uma coisa tão simples como a iluminação pública que deve ser paga com parâmetros matemáticos estabelecidos. Como é que você cobra isso? Se você tem iluminação, você paga. Você paga por metro linear da fachada do lugar onde você mora. Por cada metro linear de fachada, você paga x e está resolvido o problema. Se há iluminação eu pago, se não há, não pago.
Quer dizer que os problemas da Electra advêm não só da falta dos investimentos necessários, como também da ausência da projecção do crescimento da cidade?
A Electra, desde os seus primórdios, limitou-se a fazer a gestão dos motores e do combustível. Os únicos bairros que foram estruturados de uma forma correcta, antes do projecto da Tecnicil no Palmarejo Baixo, foi o bairro do Palmerejo e Achada São Filipe. O resto foi correr atrás do atraso.
A visita da ministra do Ordenamento do Território aos bairros degradados da Praia e as suas afirmações sobre a demolição de casas clandestinas criou um clima de crispação entre este ministério e a Câmara Municipal. Como devem ser separadas as águas?
Primeiro, eu acho que o ministério do Ordenamento do território, como é a praxe, vai se transformar num ministério da Agricultura como fizeram em Portugal. Agora, é Agricultura e Ordenamento do Território. Mas é ordenamento do território numa escala muito acima da ocupação espontânea. Eu acho um contracenso que um ministério desses com tanta coisa para fazer em Cabo Verde, chegar a se ocupar de um fenómeno crónico como é a questão da habitação espontânea. Isso é competência do município que deve implementar projectos dentro da visão global da cidade com o mínimo de programação da questão habitacional. Habitação não é só morar dentro das quatro paredes. Existem outras questões de conforto que nos levam a várias considerações estéticas, ambientais, de saúde, higiene, segurança, etc. Isso é da competência do município. Se o município da Praia não está conseguir dar vazão a isso, não é um ministério de ordenamento geral do território nacional que vai chegar lá. Cada macaco no seu galho.
Portanto, o ministério podia ficar com o seu programa casa para todos. 
O problema não é fazer casa. O problema é ter um sistema financeiro habitacional, é ter um banco de dados para ver quais são as carências habitacionais, em termos quantitativos e qualitativos. Porque o maior problema aqui na Praia é a nível qualitativo, não é quantitativo. Temos que saber, ao ver toda essa mancha cinzenta de bairros espontâneos, qual é a cidade que se quer para a capital do país. Primeiro começa pela visualização global da cidade. Não existem modalidades diferenciadas de intervenção no campo habitacional: como se costuma dizer, a habitação e o urbanismo é a mesma questão. Se você não resolve primeiro a questão do urbanismo, não vai resolver o problema da habitação. O que se está fazendo é catar buracos, chamados bolsas de terrenos, para enfiar prédios de qualquer padrão. Num projecto habitacional, você teria questões de material de construção, nomeadamente uma política de produção de material de construção local, formação de mão-de-obra aproveitando os moradores dos bairros espontâneos, projectos de intervenção em todos os tipos de espaço, desde os espaços vazios, até os espaços ocupados. Nós caímos sempre na questão da falta de planificação urbanística.
Requalificação ou urbanização?
Já disse que a requalificação está limitado às áreas do Platô e da antiga Alfândega que já foram de alto padrão arquitectónico. Isso seria realmente uma infraestruturação da Cidade da Praia. Estruturação e Infraestruturação: estruturação em termos espaciais e arquitectónicos e infraestruturação em termos de redes de prestação de serviço: saneamento básico, electricidade, iluminação pública, arborização, limpeza pública, etc. Aí entra uma grande questão; sem cobrança de impostos municipais você não chega lá. Seriam os impostos urbanos para reinverção na qualidade da vida urbana na cidade: você quer iluminação pública, você paga; você quer ruas bem pavimentas, você paga.
Falou da cobrança de impostos municipais. No caso da derrama, aprovado por mais de dois terços dos votos das duas bancadas municipais com o objectivo especifico de requalificar o edifício do Cinema da Praia, o governo não cobrou o tal imposto por ter outro entendimento sobre a matéria. A razão está de que lado?
Eu ouvi esta polémica. O governo queria que esse dinheiro fosse empregue em benefício dos munícipes, mas a competência de gerir isso é do município. Além do mais, digamos, a ressurreição do Cine-Teatro da Praia é, em termos culturais, realmente urgente. Uma das questões fundamentais que sempre se considerou primordial para a atracção das populações para os centros urbanos é a questão estética. O Cine-Teatro da Praia é um centro de irradiação de ensinamentos estéticos, talvez muito mais importante do que investir perdidamente e sem controlo neste universo de bairros espontâneos. Eu acho que CMP teve o seu direito de decidir o que é que vai fazer, sem contar com esses aspectos técnicos e culturais que é fundamental e que faz falta evidente à Cidade da Praia.
Para fazer face à criminalidade urbana, o governo optou por investir fortemente na Polícia Nacional, aumentando o número de efectivos e criando novas brigadas. É este o meio mais adequado de combater a criminalidade, ou teria de englobar várias outras vertentes, entre as quais a reestruração urbana?
Não é com o aumento dos efectivos que se combate a criminalidade. Até porque toda a gente conhece bem o padrão intelectual dos agentes da Polícia. Na matéria do urbanismo que nos diz respeito, portanto da organização espacial, enquanto você criar esses ghettos, o problema não se resolve. Quem é que de sã consciência, entra hoje no Cobom, a partir das 19H00 da noite? Qual é a via que você tem de acesso, circulação e saída dentro desse bairro? Portanto, essa questão da reestruturação urbana é fundamental para a resolução do problema da segurança. Para reestruturar uma rua não quer dizer que você vá abrir grandes ruas, nem quer dizer que vai derrubar as casas. O que é preciso é intervir dentro do existente, melhorar e corrigir ali dentro e dar o padrão que aparentemente indica o padrão de vida do cabo-verdiano, país de desenvolvimento médio como está no papel e outras histórias por aí. A intervenção urbanística seria fundamental na redução da criminalidade. 

9-10-2011, 21:59:00
Expresso das Ilhas

domingo, 2 de outubro de 2011

Memória de São Vicente Colecção da Foto Melo está a ser inventariada



Antiga loja de fotografia guarda importante espólio fotográfico que ajuda a contar a história do Mindelo no século XX.

A tarde está quente e por isso o ar é praticamente irrespirável. No interior das antigas instalações da Foto Melo, no Alto Miramar, bairro central da cidade do Mindelo, a temperatura está elevada, o que será razão ainda mais suficiente para que se sinta o cheiro a pó e mofo, que impera num lugar que faz parte da história de São Vicente.

Não será exagero dizer que a memória visual do século XX da ilha do Monte Cara está guardada entras estas paredes de tinta a descascar.

Em película ou vidro, encontram-se retratos de família, reportagens de casamentos, baptizados e funerais ou dos grandes eventos que marcaram o ‘Mindel d'outrora'.

Sujeitas à degradação natural do tempo, acelerada pela falta de condições ideias para a sua preservação, as fotografias corriam o risco de se perder, levando com elas um acervo histórico em imagens.

Depois de tomar conhecimento, através de um membro da família Melo, da dimensão da colecção, o fotógrafo e investigador português Diogo Bento apresentou um projecto para a inventariação do material existente.

Com o apoio institucional do Centro Cultural Português e da Direcção Geral das Artes em Portugal, aproveitando o último programa de estágios Inov-Art - e resolvendo assim a questão do financiamento - Diogo tem estado a construir uma base de dados que, no futuro, facilitará o trabalho de preservação e até de consulta das fotografias.

A sua acção divide-se em várias etapas, a primeira das quais passou pela etiquetagem das 1500 unidades de instalação, nome técnico que é dado a cada caixa de negativos, a cada rolo ou conjunto de imagens.

Sem números precisos, o fotógrafo estima que existam cerca de 150 mil fotografias, a maior parte das quais obtidas em estúdio, mas também largas centenas captadas no exterior - até mesmo fora de Cabo Verde.

"Esta colecção reúne, basicamente, a vida política, cultural e social do Mindelo ao longo de todo o século XX".

"Para já, a etapa principal é a do inventário, que é o mecanismo base deste tipo de trabalhos e que permite quantificar as espécies fotográficas, saber a quantidade de processos diferentes, saber o estado de conservação geral da colecção, saber os assuntos genéricos".

Uma etapa que não implica a movimentação do material existente e da qual resultará um relatório que, no futuro, será um instrumento importante para que os proprietários da colecção possam decidir sobre o seu destino.

A preocupação central neste momento é ter uma ideia geral do que existe, criando as condições mínimas - embora não as ideais - para a sua conservação.

"De certeza que mais de metade, ou quase a totalidade tem algum tipo de degradação, num grau mais ou menos elevado, e muito poucas estão completamente isentas de degradação", resume.

"Antes de mim já cá tinham estado dois técnicos que fizeram um pré-inventário baseado numa amostra", acrescenta.
Perfeito seria que a colecção fosse mantida num espaço com humidade e temperaturas controladas, respeitando-se, ao mesmo tempo, um conjunto mais vasto de requisitos. Não sendo isso para já possível, o técnico português vai procurar mantê-la, pelo menos, a salvo das pragas - como insectos ou ratos - e da chuva.

No futuro, as 150 mil fotografias poderão ser aproveitadas de diferentes formas. Diogo Bento sugere a sua digitalização, salvaguardando-as de qualquer incidente, e permitindo uma eventual disponibilização das mesmas na Internet. A sua utilização como fonte em projectos de investigação é outra possibilidade.

A título pessoal, Diogo confessa que gostaria de ver o espaço da Foto Melo transformado num museu que fizesse jus à sua importância passada.

"Acho que seria um projecto muito interessante avançar para uma casa museu. Sendo um espaço que possa albergar tanto uma exposição permanente, como um local com um pouco da história do que foi a Foto Melo, assim como exposições temporárias. Ser, no fundo, um espaço de dinamização cultural da cidade", conclui.
A ligação com Cabo Verde
A primeira vez que esteve em Cabo Verde foi ainda criança, com quatro anos. Regressou em 2008, e esteve alguns meses na Serra Malagueta, em Santiago, no âmbito de um trabalho académico desenvolvido em parceria com o parque natural. 
Licenciado em arquitectura paisagista, Diogo Bento tem desenvolvido o seu trabalho no campo da fotografia. Fez uma pós-graduação na área e mantém uma colaboração com a LUPA, empresa de referência no domínio da conservação fotográfica.
Já este ano tinha estado entre nós a propósito de um projecto autoral dedicado a Amílcar Cabral e do qual resultou uma exposição que esteve patente em Lisboa e que deverá ser brevemente apresentada em São Vicente.
 Fonte: Expressodasilhas