domingo, 2 de outubro de 2011

Memória de São Vicente Colecção da Foto Melo está a ser inventariada



Antiga loja de fotografia guarda importante espólio fotográfico que ajuda a contar a história do Mindelo no século XX.

A tarde está quente e por isso o ar é praticamente irrespirável. No interior das antigas instalações da Foto Melo, no Alto Miramar, bairro central da cidade do Mindelo, a temperatura está elevada, o que será razão ainda mais suficiente para que se sinta o cheiro a pó e mofo, que impera num lugar que faz parte da história de São Vicente.

Não será exagero dizer que a memória visual do século XX da ilha do Monte Cara está guardada entras estas paredes de tinta a descascar.

Em película ou vidro, encontram-se retratos de família, reportagens de casamentos, baptizados e funerais ou dos grandes eventos que marcaram o ‘Mindel d'outrora'.

Sujeitas à degradação natural do tempo, acelerada pela falta de condições ideias para a sua preservação, as fotografias corriam o risco de se perder, levando com elas um acervo histórico em imagens.

Depois de tomar conhecimento, através de um membro da família Melo, da dimensão da colecção, o fotógrafo e investigador português Diogo Bento apresentou um projecto para a inventariação do material existente.

Com o apoio institucional do Centro Cultural Português e da Direcção Geral das Artes em Portugal, aproveitando o último programa de estágios Inov-Art - e resolvendo assim a questão do financiamento - Diogo tem estado a construir uma base de dados que, no futuro, facilitará o trabalho de preservação e até de consulta das fotografias.

A sua acção divide-se em várias etapas, a primeira das quais passou pela etiquetagem das 1500 unidades de instalação, nome técnico que é dado a cada caixa de negativos, a cada rolo ou conjunto de imagens.

Sem números precisos, o fotógrafo estima que existam cerca de 150 mil fotografias, a maior parte das quais obtidas em estúdio, mas também largas centenas captadas no exterior - até mesmo fora de Cabo Verde.

"Esta colecção reúne, basicamente, a vida política, cultural e social do Mindelo ao longo de todo o século XX".

"Para já, a etapa principal é a do inventário, que é o mecanismo base deste tipo de trabalhos e que permite quantificar as espécies fotográficas, saber a quantidade de processos diferentes, saber o estado de conservação geral da colecção, saber os assuntos genéricos".

Uma etapa que não implica a movimentação do material existente e da qual resultará um relatório que, no futuro, será um instrumento importante para que os proprietários da colecção possam decidir sobre o seu destino.

A preocupação central neste momento é ter uma ideia geral do que existe, criando as condições mínimas - embora não as ideais - para a sua conservação.

"De certeza que mais de metade, ou quase a totalidade tem algum tipo de degradação, num grau mais ou menos elevado, e muito poucas estão completamente isentas de degradação", resume.

"Antes de mim já cá tinham estado dois técnicos que fizeram um pré-inventário baseado numa amostra", acrescenta.
Perfeito seria que a colecção fosse mantida num espaço com humidade e temperaturas controladas, respeitando-se, ao mesmo tempo, um conjunto mais vasto de requisitos. Não sendo isso para já possível, o técnico português vai procurar mantê-la, pelo menos, a salvo das pragas - como insectos ou ratos - e da chuva.

No futuro, as 150 mil fotografias poderão ser aproveitadas de diferentes formas. Diogo Bento sugere a sua digitalização, salvaguardando-as de qualquer incidente, e permitindo uma eventual disponibilização das mesmas na Internet. A sua utilização como fonte em projectos de investigação é outra possibilidade.

A título pessoal, Diogo confessa que gostaria de ver o espaço da Foto Melo transformado num museu que fizesse jus à sua importância passada.

"Acho que seria um projecto muito interessante avançar para uma casa museu. Sendo um espaço que possa albergar tanto uma exposição permanente, como um local com um pouco da história do que foi a Foto Melo, assim como exposições temporárias. Ser, no fundo, um espaço de dinamização cultural da cidade", conclui.
A ligação com Cabo Verde
A primeira vez que esteve em Cabo Verde foi ainda criança, com quatro anos. Regressou em 2008, e esteve alguns meses na Serra Malagueta, em Santiago, no âmbito de um trabalho académico desenvolvido em parceria com o parque natural. 
Licenciado em arquitectura paisagista, Diogo Bento tem desenvolvido o seu trabalho no campo da fotografia. Fez uma pós-graduação na área e mantém uma colaboração com a LUPA, empresa de referência no domínio da conservação fotográfica.
Já este ano tinha estado entre nós a propósito de um projecto autoral dedicado a Amílcar Cabral e do qual resultou uma exposição que esteve patente em Lisboa e que deverá ser brevemente apresentada em São Vicente.
 Fonte: Expressodasilhas

1 comentários:

  1. Há tanta coisa por aí espalhada, e que acabará por se perder. Que seja lançado um apelo aos particulares para contribuir para a recolha da nossa história e cultura, seja através de fotografias, objectos, contos e relatos que se perderam. Que tudo seja inventariado e colocado em museu. Aliás cada ilha devia ter o seu museu de história local.Tenho é pena que o Governo tenha agido muito tarde pois muito se perdeu, especialmente em S. Vicente. Mas ainda é possível recuperar muita coisa. E o espólio do Éden-Park, onde pára?

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