sábado, 30 de abril de 2011

Um contributo para a inventariação do património cultural

O Patrimonium.cv recebeu um valioso contributo do Sr. Joaquim Cabral, na senda da sua pesquisa etnográfica de cidadania, sobre o património cultural da ilha de São Nicolau. Trata-se de um contributo, que não deixa de ser interessante, para um trabalho aturado sobre o património de Cabo Verde. Para além de trabalhos, que nós todos conhecemos, do professor Lopes Filho, urge conhecer outras práticas culturais que estão enterradas no charco da vida. A solução é irmos à pesca, munidos de instrumentos, e com o envolvimento da comunidade. Sem muito barulho e propaganda, o trabalho deve ser feito de forma competente.  
O mundo está em constante processo de mudanças de modelos produtivos, diga-se paradigma. Agora o que conta são os processos criativos. A criatividade como criador de riqueza. Reinventam-se tradições, os lugares históricos são alvos de apropriações turísticas e pedagógicas, pulsam manifestos de identidade e de identificação nas várias comunidades imaginadas. Nunca estaremos sós.
A indústria cultural já entra no nosso vocabulário. De experiências transnacionais encontramos muitos exemplos bem-sucedidos; bons exemplos mediatizados com Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) com a tradição. Fazem parte de catálogos de novas práticas: feiras gastronómicas, celebração do passado com a História Viva, reconstruções de alguns processos históricos, etc. E, agora: como capitalizar essas práticas se em Cabo Verde não foram feitas trabalhos de casa, como a identificação e a inventariação? Como diversificar os produtos provenientes dessas práticas inventariadas? Como fazê-las, com que recursos?
Cabe ao governo criar condições; fazer o trabalho de casa. Criar programas de longo prazo. Exigir dos seus colaboradores (Ministério da Cultura e outros) a elaboração de planos de actividades anuais, digo mesmo plurianuais, com os objectivos, metas e estratégias… Sem esquecer que o governo é um sistema composto por vários ministérios que precisam ser sistematizadas, agarradas como elementos de um mesmo corpo. Nada de conflitos sectoriais porque tem trazido atrasos e desperdícios de recursos. O tempo não é para brincadeira e os recursos não abundam.   
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INVENTÁRIO DO PATRIMÓNIO CULTURAL
Joaquim Cabral

ocasião própria para tudo debaixo do céu: Eclesiastes 3:1-8
… Tempo de nascer e tempo de morrer, de plantar e de arrancar o que se plantou, de ferir e de curar, de derrubar e de edificar…
Com base nesse pressuposto, se calhar eu nem tivesse razão para me preocupar com este assunto. Afinal há um tempo próprio, até para se fazer até o inventário do património cultural.
Não sendo teólogo, assiste-me alguma complacência, relativamente à compreensão que tenho de determinadas disposições bíblicas. Não entendi bem, aquilo que vem fixado em Eclesiastes, ou seja, que devemo-nos sentar, estender as pernas e passivamente esperar pela chegada dos tempos. Julgo que, para determinados fenómenos (nascer, morrer,…) nada mais há a fazer que sentar e esperar. Para outros, não acho correcto. Há que os fazer acontecer.
Logo, não estou de acordo nem me sinto obrigado a aguardar passivamente à chegada do tempo de se fazer o inventário do património. E, porque, há tempo de estar calado e tempo de papiar… tal como estatuído no mesmo princípio, decidi papiar, e meus bons amigos Caló, Martinho, Adelaide e C.ia, não levarão a mal, sabem que meu desabafo não contém maldade, que, passou a ser esmiuçado em tudo que se diga nesta terra.
E o que vou dizer é o seguinte: Temo que muita coisa se terá perdido quando o inventário do património acontecer.
As Nações Unidas em 1972, e o Governo de Cabo Verde através da lei 102/III/1990, deram conta dessa necessidade, e tomaram medidas, tendentes à inventariação e preservação do património.
O que se fez de então a esta parte?
Há uns anos, iniciei como pude, por cá na minha terra Saninklau, à minha maneira, se calhar sem os rigores que se exige, o meu inventário. Já agora não só o material, mas sobretudo o imaterial, que mais rapidamente desaparece com as “partidas” mais que eminentes das muitas “bibliotecas” armazenadas nas mentes de nossos anciãos.
Qual “caçador de heranças”, - não escondo-o, apropriei como pude, de muito desses “arquivos” vivos. E porque não sou egoísta, expus o que coube dessa herança, no “Sodade de Nhâ Terra Saninklau”. O resto guardado, não a sete, mas a 14, quem sabe, 21 chaves.
Não se zanguem se pedir agilidade. Tornei-me assim nos últimos tempos, quando em causa está a preservação do património. E não me perguntem porquê, pois nem eu sei explicar. Deduzo que decorre da importância que descobri, que se dá noutras paragens. A fundação Mário Soares (Deportados da Revolta do Estado Novo). Uma Câmara Municipal de Portugal que editou meu livrinho (Sodade de Nhâ Terra Saninklau), a Rádio Antena Livre (Vale do Tejo), a Rádio Vaticana (Onde fui entrevistado em 2007), Uma universidade Americana (Pesca da Baleia), são algumas entidades que nos têm batido à porta, a propósito dessas pseudo-investigações culturais. Até a Secretaria Regional de Educação e Cultura da Madeira, através do Centro de Estudos de História do Atlântico pediu a minha anuência para incluir meu nome na lista dos investigadores … “Estamos preparando uma lista de investigadores insulares ou que trabalham sobre esta temática. Caso esteja interessado em que o seu nome figura agradecemos que nos envie as seguintes informações:
1. Nome completo; 2. Instituição;  3. Ilha; 4. url da página para podermos fazer o link. Todas as informações ficarão disponíveis em: http://www.madeira-du.pt
E não é que eu, atrevidamente, estou a considerar a possibilidade de aceitar?
Bem, dizia: Aprendi a admirar e valorizar aspectos históricos da nossa cultura, e decidi que não ia ficar pelos triviais, que constam em qualquer manual; A arquitectura atraiu meu interesse. Hão de perguntar, mas porquê arquitectura? É muito simples; Consequência do relacionamento com Djosa ou Zé de senhor Norberto, esse Patchê despretensioso, que mesmo por isso, não se dá nas vistas, com quem partilhei habitação no Brasil. Os catedráticos da Universidade Federal da Paraíba onde ele pós-graduou-se, que estiveram à sua procura quando, por amor à terra decidiu vir morar em Cabo Verde, falaram-me da elevada intelectualidade das qualidades e do arrojado projecto de pesquisa que ele desenvolvia. Mas foi sobretudo em decorrência a partilha de pontos de vista que despertaram ao menos a minha sensibilidade, e hoje, gabo-me de conhecer e poder diferenciar o verdadeiro significado de “arquitectura”, discernir entre a boa e a má, seu valor histórico-cultural e até simbólico.
Disso, decorre a dor que me vai na alma por ver”Lombinho”, em estado de derrocada eminente a que chegou. Não é por ter lá morado alguns meses, não é por ter sido residência de minha madrinha (Ricardina Barros). É pelo seu valor arquitectónico, história que encerra, pelo simbolismo associado aos tempos áureos de minha terra Saninklau.  


 fonte: artigo gentilmente cedido pelo Joaquim Cabral 

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