terça-feira, 15 de março de 2011

Viva a música e os artistas cabo-verdianos


Hoje acordei com a música nos ouvidos. Músicas de vários espaços-tempos, de tons, cores e sentimentos que têm moldado a espiritualidade de muitos enquanto seres errantes que viajam em vários espaços sociais, reais e virtuais.  A música nos ouvidos não é outra coisa senão  o meu descontentamento perante a hipocrisia e ignorância de críticos de pacotilha que grassam em Cabo Verde. Isto vem a propósito da genuinidade da música de Cabo Verde.
A identidade cabo-verdiana está ao sabor do tempo e espaços mundo, numa incursão de tensões e de procura do novo. Foi com essa deambulação nos vários espaços da vida que muitos cabo-verdianos cresceram e desenvolveram a sua espiritualidade, o seu corpo e a sua sonoridade.
A caboverdianidade, espelhado na música nasceu nesse espaço-tempo de tensões. Sempre foi assim. A música em Cabo Verde foi várias coisas; é a sonoridade plástica que foi alimentando de várias experiências globais. A música nunca foi neutra, sempre teve influências.  
O primeiro momento de tensão acontece no contexto colonial. Nas cidades-porto, com as suas quietude e inquietude, o povo das ilhas conviveu com várias racionalidades, de culturas   diferentes. Nesse contexto, como em todo espaço real existe sempre espaço simbólico de visões  e divisões do mundo; divisões de classes em termos de posses e práticas culturais. Nas cidade-porto foram assim quer na Boa Vista, São Vicente e Santiago. As sonoridades surgiram no contexto de tensão, de divisão e de união. A morna, a coladeira, funaná, entre outros, surgiram dessa forma. 
No contexto pós-colonial, com a independência e o desenvolvimento urbano,  o panorama musical vem alimentando no seu arcaboiço, novos estilos, performances e tendências.  A cultura urbana é feito de muitos mundos, por isso, o contexto pós-colonial apresenta uma  abordagem diferente. Não é da mesma timbre que punha em jogo, práticas e divisões de classe. Se formos analisar bem, o contexto sociocultural da emergência da “nova música” podemos ver que existe tensões latentes, algum desconforto até, perante o estado de coisas. Uma certa reconversão e ânsia de alguns elementos da classe artística que decidiram voltar «para a fonte», (vivência do campo). Quem não se lembra do surgimento dos, ferro gaita e de Orlando Pantera… nessa ânsia de recriar e trazer o novo para o panorama musical cabo-verdiana… No contexto em que o peso da criação artística da Diáspora era enorme, com a grande implantação no espaço das ilhas... Não se produzia nada, os agrupamentos musicais eram residuais. Existia até debates sobre a genuinidade da música cabo-verdiana; o “triunfo dos medíocres”, música de pacotilha, enfim situações de luta no campo cultural entre os puristas, tradicionalistas (conservadores) e os renovadores com algum peso da diáspora da Holanda e Estados Unidos…
Muitas das críticas ferem a criatividade e o à vontade de «fazer cultura»; os artistas são sensíveis, precisam de ser acarinhados. Por isso, digo às pessoas que navegam nessa lengalenga conservadora que desconhecem a Sociologia da Cultura, por isso não sabem do que falam. A história da música cabo-verdiana, o que existe, necessita de base crítica; de uma reflexão divorciada de qualquer imposição essencialista e bairrista. O pensar global e o agir (criar) local sempre acompanhou os Cabo-verdianos nos vários espaços-tempos, balizada na tensão entre a raiz e a opção.
Salve mais  artistas que têm ajudado a construir Cabo Verde, polinizando lugares com a sonoridade das ilhas e do mundo;   não liguem as gargalhadas das hienas; dos críticos da esquina e taberna porque não sabem do que falam. Continuem a criar, cruzar e «crioulizar» a nossa alma e o nosso corpo.

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