quinta-feira, 17 de março de 2011

Uma educação multicultural precisa-se



Os estudos pós colonial têm denunciado a invisibilidade de questões relacionadas com as diferenças, pondo em cheque a validade das construções científicas da Modernidade.  
Actualmente, na verdade, depois de vários fóruns sobre a temática multicultural pelos vistos as coisas não têm mudado. É de reconhecer os esforços desenvolvidos por parte de diversas entidades que laboram na educação multicultural. Uma pedagogia crítica urge para o desenvolvimento social e comunitário.
Para este espaço trouxe um artigo muito interessante porque questiona a parte mais humana que tem a ver com a inocência, o lúdico, e a educação familiar.
Eis o artigo: 

Postal de Lisboa 17 Março 2011

Alguma vez ofereceu um "bébé-chorão" negro à sua criança? Perguntei, aleatoriamente, a várias pessoas de pele branca, depois de ter percorrido vários centros comerciais famosos à procura de brinquedos e materiais iconográficos que retratassem a diversidade cultural e étnica visível na capital portuguesa. A resposta foi “não!”. Como “não!” foram as que, via telefone, obtive de jovens pais conhecidos que, numa defensiva, me retorquíram: “os meus filhos têm lá no infantário muitos amiguinhos pretos!”.
De Otília Leitão

É verdade. Os infantários estão hoje repletos de crianças originárias de muitos países europeus, africanos e asiáticos de várias culturas e etnias. Mas, o princípio educacional identitário ou pela diversidade, através de materiais lúdicos, e a partir do centro da família, é ainda muito incipiente.
Recordei-me como já se passou meio século desde que a minha irmã mais velha me ofereceu uma boneca preta, de trapos, a primeira de uma colecção de muitas outras de culturas e etnias diferentes, de tecidos, celulose, madeira, porcelana e que fui coleccionando ao longo da minha vida. O lúdico, mas com sentido, transferiu-se para uma convivência prazerosa que cultivo com mulheres de diferentes mundos.
Se nessa época, ainda em regime ditatorial, era raro, hoje, no Portugal democrático que obteve o 2º lugar no ranking - de acordo com os dados da 3ª edição do index de políticas de integração dos migrantes, entre 31 países, - verifico serem escassas as representações identitárias expressivas da diversidade humana que o povoa e que fazem com que as crianças diferentes se amem a si próprias e respeitem as outras.
Na minha busca em prestigiadas lojas de brinquedos já podemos encontrar os típicos “bebés -chorões” muito utilizados para presentes, nas diferentes tonalidades do negro agora muito em voga dizer-se “chocolate” em vez de “mulato” de olhos castanhos e azuis, embora em reduzidas quantidades que aguardavam pelos seus “pais” em prateleiras, ao lado de dezenas de “branquelas” ou as tonalidades do branco (também de olhos castanhos e azuis).
As conhecidas “barbies” já incluem a concorrente negra, a par da ruiva, da loura e da morena.
As bebés com traços fisionómicos orientais (chinesas) começam agora a entrar no mercado, onde já pautavam outras como as índias de tranças, e as russas bem embrulhadas em panos típicos.
Nos livros de histórias há já uma preocupação em incluir crianças de todos os estilos e tons de pele, numa fusão inclusiva de culturas. Em cartazes publicitários de roupas de crianças, assim como nas próprias montras, mais em lojas conceituadas e pioneiras, encontram-se manequins de todas as cores humanas.
Uma educadora de infância, Susana Isabel, de um infantário de referência, um “franchising” norte-americano que tem vários escalões etários, conta-me que aqui têm crianças de várias origens europeias, algumas africanas e orientais: “Porque a sede-mãe é americana, é obrigatório termos bonecos negros e orientais, mas a maioria dos infantários não tem. Mesmo assim, já tivemos um bebé negro a quem uma criança europeia branca chamava “filho” e o pai dela não gostou muito... Foi preconceituoso, e aí tivemos de fazer um trabalho pedagógico”, disse.
Estas constatações são amostragens ainda tímidas, se considerarmos que as crianças nas escolas têm actividades pela igualdade do género - colocar rapazes a passar a ferro ou a lavar a loiça e meninas a jogar à bola ou arranjar um carro - conceitos tradicionalmente atribuídos ao género feminino e masculino. São ainda poucas as instituições, que embora recebam essa diversidade infantil, a abordam como um valor a respeitar, igualitariamente.
No contacto natural com brinquedos diferentes, nomeadamente através de “bebés chorões” com os quais as crianças se identificam, pode reconhecer-se que são bonitas, que são tanto padrões de beleza as criança brancas, como as negras ou as resultantes de misturas várias. A diversidade é nesse sentido, uma forma de entender o país, em todos esses diferentes segmentos, todos eles com valor e importância.
Vale a pena recordar, entre outros casos, o registo do exemplo de Eliza Kenneth Clark (1914/2005) e Mamie Phipps Clark (1917/1983) psicólogos afro-americanos e activistas do Movimento dos Direitos Civis que efectuaram experiências com a utilização de bonecas diferentes para estudarem a reacção das crianças.
O teste, cujos resultados contribuíram para alterar a segregação nas escolas norte-americanas e contribuíram para abolir a inferioridade que afectava a sua auto-estima, consistia em exibir duas bonecas negras e duas brancas, pedindo que as mesmas dessem às bonecas determinadas características, como “bonita”, “boa” e “má”. Tanto em 1939, como depois em 1950, uma maioria de crianças, tanto negras quanto brancas, atribuiu as características de “boa” e “bonita” às bonecas brancas e definiram como “má” as bonecas negras.
O teste tem sido utilizado noutros contextos para o mesmo efeito e foi até objecto de um trabalho do cineasta Kiri Davis apresentado no vídeo ‘A Girl Like Me’ (2005). V. http://www.youtube.com.
A Indústria Lúdica e Cultural, possui um papel fundamental no sentido de fornecer referências que irão compor o universo das crianças, e há um avanço notável para que não se repitam os registos do século XIX onde eram notórias as desoportunidades que deixavam no limbo os imerecedores de educação – “crianças pobres, negras, multas e pardas”.
Porque compreender e aceitar a diferença é o primeiro passo para uma sociedade livre e uma integração pluralista, a coexistência de grupos culturais minoritários no seio de uma cultura dominante exige recriação e renovação de sentido. Se os bebés chorões louros foram durante anos a única opção é tempo de ser o próprio seio familiar, e as escolas, a promoverem o amor identitário e o respeito pela diversidade logo à nascença humana.

Fonte: http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article62291&ak=1#ancre_comm



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