sexta-feira, 18 de março de 2011

Musicalidade e sonoridade: vento da história levanta o véu das movimentações artísticas


1. Onde tudo terá começado: no vale e cutelo da cidade de Ribeira Grande
Cabo Verde desde povoamento das ilhas foi palco de muitas manifestações culturais. Para António Correia e Silva na sociedade escravócrata, a cidade da Ribeira Grande terá sido palco de encontros de musicalidades ibéricas e africanas (Correia e Silva: 2004). Alguns indicadores apontam para a existência de violas de bico, tambores de pífaros, trazidos pelos marinheiros que povoavam as artérias da rua do Porto e das do calhau. Outros instrumentos vieram pelas mãos do clero. A cidade de Ribeira Grande terá sido uma cidade musical ou mesmo uma “babel música. A música no quotidiano da Ribeira Grande era:
 “manifesta ou disfarçada, (…) esteve presente em quase tudo. Até nos funerais que eram, no catolicismo da Contra Reforma reinante na cidade, verdadeiros actos de festa pública, sobretudo quando de grandes senhores. Estes tinham por hábito de arregimentar escravos e forros negros para porem em prática os seus dotes de choradores de preces ou para assistirem missas cantadas, responsos, oitavas, novenas, mandadas celebrar, dentro da concepção medieval de que os pobres, os mendigos, os sofredores e todos os demais desvalidos da ordem escravocrata tinham mais poder de interceder pelas almas dos poderosos do que quaisquer outros membros de outras categorias sociais” (idem:27).
No quotidiano da Ribeira Grande, as pessoas brincavam o «Reynado», festa que incluía desfiles de rua, com representação da corte, usando tambores e instrumentos de sopro. O «Reynado» era uma teatralização do poder, protagonizado por aqueles que não o podiam aspirar, tornava esta festa objecto de desconfiança e de muitas leis repressivas. “A festa era, no mais das vezes, o momento em que os cânones dominantes eram públicos e ruidosamente violados” (idem: 28)
No século XVIII, multiplicam-se os casos de padres negros tocando zambunas, com palmas, violas e batidas no interior das igrejas. Os negros quando foram forçados a deixar o seu «mundo», com eles transportaram a sua cultura. Esses elementos eram preservados, por exemplo, através dos seus cultos religiosos, com utilização de cantos e danças, como meio da sua libertação.
O processo de reinterpretação e bricolage dos traços culturais dos grupos dominantes fora uma realidade em Cabo Verde. Acredita-se que muitas expressões musicais que hoje conhecemos tiveram origem através dos processos de resistência e reinterpretação. Surgiam através de sons do «samba», da «valsa», da «contradança», da «mazurca», roubadas de ouvido aos que escutavam nas festas dos senhores dos sobrados ou das casas das cidades e que desejavam imitar os seus divertimentos. Essas formas musicais foram transferidas do «sobrado» para o «funcho» com as características inovadoras.
As manifestações com influências africanas, o caso da tabanca, do batuque e do funaná foram proibidas durante o período colonial por serem manifestações indecorosas. O «finca pé» dessas manifestações culturais é prova da resistência sufragada na colectividade que procura, através de diversos mecanismos defender a sua especificidade cultural, as vezes incorrendo no etnocentrismo cultural ou relativismo para provar que o seu modelo cultural é original e de uma qualidade que lhe é própria.
O ambiente político, social e cultural na época não favorecia de modo algum, as manifestações das músicas e danças afro-negras. Essa atitude conservadora traduzia em acções muitas vezes violenta às manifestações com influência africana. O que se depreende é que a imposição hegemónica não redimira a criatividade popular. Notava-se uma dinâmica de baixo para cima em que a cultural das classes populares iam conquistando a simpatia e a aceitação de novos actores locais.
É interessante notar o peso da cultura popular nas movimentações independentista. As elites locais viram na cultura popular uma arma poderosa contra o colonialismo, um elemento catalisador para a passagem das mensagens emancipatórias. Com a independência muitas manifestações culturais que eram desprezadas no catálogo das práticas culturais das elites locais foram valorizadas constitucionalmente.  

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