domingo, 13 de março de 2011

José Maria Semedo : A tradição de cinzas está a perder-se

É esta a percepção do investigador cabo-verdiano, que enuncia, nesta entrevista, as diversas tradições associadas ao dia de Cinzas. Tradicionalmente associada ao início do período de Quaresma para os cristãos, que engloba 40 dias de jejum e penitência, na ilha de Santiago o dia é marcado por banquetes com fartura. Mas, a tradição de cinzas é mais do que isso, e muitos desses aspectos estão a perder-se com o passar dos anos. 
Expresso das Ilhas -Tradicionalmente, o que é que se comemora no dia de Cinzas?
José Maria Semedo -Trata-se de uma tradição judaica, que passou para o Cristianismo. Segundo a lei de Moisés, quando estão de luto, os judeus rasgam as vestes, vestem sacos e cobrem-se de cinzas. É um sinal de penitência e arrependimento. O Cristianismo manteve essa tradição de fundo, mas com uma outra perspectiva. As cinzas marcam o primeiro dia de Quaresma, que termina na Páscoa. Mas, se já reparou, a Páscoa católica não tem quarenta dias, apesar de se chamar Quaresma. Isto porque os judeus trabalhavam com o calendário lunar e a Páscoa é na primeira lua cheia depois da Primavera. Mas, para a Igreja Católica, a Páscoa é comemorada no primeiro domingo depois da lua cheia, depois da Primavera. A partir daí é que se determina a Cinza, que é numa quarta-feira. Nesta quarta-feira, deve-se exprimir o sentimento de arrependimento e luto. Os cristãos cobrem-se de cinzas, em cima da cabeça, como sinal de arrependimento e penitência. E até à Páscoa fazem penitência, repartindo o que têm a mais com os pobres. Mas, com o tempo, as tradições foram mudando e as cinzas deixaram de ser um evento estritamente religioso.
A Quaresma está associada ao jejum. Mas, em Cabo Verde, parece que verifica-se o contrário, pois come-se muito na quarta-feira de cinzas.
A quarta-feira de cinzas é um dia de jejum, mas é preciso perceber porque se come tanto. Somos uma sociedade de tradição medieval, mas também fomos uma sociedade escravocrata, sobretudo na ilha de Santiago. Nessa época, no dia de cinzas, os proprietários faziam o jejum e davam de comer aos seus escravos. Mantinham a ideia de penitência, pois davam aos escravos o que tinham a mais. Nesses dias, os escravos comiam tudo com abundância, menos carne. Em Cabo Verde, come-se de tudo devido ao reflexo da sociedade escravocrata ainda nos dias de hoje. Nota-se assim o cruzamento da festa cristã com a sociedade escravocrata. Mas não é só em Cabo Verde que se come na Quaresma. Também em Portugal, no Alentejo, faz-se isso a seguir ao Carnaval, que significa "adeus à carne". As pessoas despedem-se da carne, porque já só poderão comer carne depois da Páscoa. Ainda há uma diferença assinalável. Em Cabo Verde, usamos uma série de pratos, mas não usamos a carne. Já em Portugal, comem carne de carneiro e borrego, o que é ainda mais contra-senso com o princípio do cristianismo.
Que razões explicam essa forte tradição de celebração do dia de Cinzas na ilha de Santiago? 
As cinzas são celebradas sobretudo no interior da ilha de Santiago, onde há mais influências da sociedade escravocrata. Ainda assim, também há indícios de celebração de cinzas na ilha do Maio. Além disso, há documentos da história de Cabo Verde que mostram festejos das cinzas em Santo Antão no século XVIII. Na altura, havia a tradição do chamado "casamento de cinza" e "foro do mel". Era uma espécie de casamento simulado, sobretudo entre os escravos, em que os casais trocavam presentes. Era uma tradição que podia ou não conduzir ao casamento no civil. Os homens ofereciam foro de mel, aguardente e dinheiro, e as mulheres davam cuscuz, feijão, etc. Mas acho que o Bispo entendeu que essa festa conduzia para além daquilo que não interessava e acabou por proibir essa tradição.
A comemoração foi introduzida recentemente na cidade da Praia. 
Muitas festas que eram tipicamente do mundo rural santiaguense aparecem agora na Praia. Na capital, a festa de cinzas é recente, talvez a partir da década de 70 ou 80, com a concentração de pessoas do mundo rural na cidade. As cinzas tornaram-se numa festa urbana, mas vieram do mundo rural.
Existe uma percepção de que, na cidade da Praia, a festa de cinzas é mais comemorada que o Carnaval. 
Faz-se as duas coisas. Mas o Carnaval na ilha de Santiago tem mais aparatato de rua e é uma festa pública. Já as cinzas são uma festa de dentro de casa, em família, e não tem expressão de rua. Esta é a grande diferença.
Mas, por exemplo, na ilha de São Vicente, onde o Carnaval é mais comemorado, as cinzas não têm a mesma expressão que em Santiago. 
Isto porque São Vicente não tem meio rural e as cinzas são uma tradição rural. Em São Vicente, o Carnaval começou a ganhar expressão só no século XX. O que havia antes era São João, São Pedro e Santa Cruz. O Colá Sanjon é que era a festa tradicional da ilha. O Carnaval só começou a ser comemorado a partir da década de 30, durante a época em que passavam muitos barcos brasileiros no Porto Grande e que introduziram o samba e a tradição do Carnaval na ilha.
Voltando à ilha de Santiago. De que forma tem sido comemorada a festa de cinzas? O que é que se assinala?
Continua a ser a Quaresma. No dia de cinzas, o talho da Praia está fechado por tradição, e não há carne. Nota-se assim a importância que se dá a não consumir carne nesse dia. Todos consomem peixe. É o início da Quaresma. A família junta-se e convida os amigos, mas é apenas uma refeição a meio da tarde. Não há pequeno-almoço nem jantar. No mundo rural, a cinza é estritamente religiosa. Além do religioso, há o casamento de cinza e o foro de mel, o tal que o Bispo proibiu em Santo Antão.
Acha que essas tradições ainda se mantêm?
Já não tenho conhecimento e duvido que ainda existam. Já não há pessoas que se casam pelas cinzas. Penso que os mais jovens não atribuem, naturalmente, o mesmo sentido à Quaresma ou à Páscoa. Por isso, a probabilidade da sua manutenção é remota.
Em termos de gastronomia, há pratos típicos associados à festa de cinzas. 
O mais importante é que não deve haver carne. Pode-se ter peixe, de preferência peixe seco. A base tem que ser composta por vegetais de modo geral (batata, mandioca), feijão, xerém, e cuscuz com mel.
Como avalia a evolução da celebração de cinzas na ilha de Santiago. Tem notado a perda de algumas tradições?
Sim. Antigamente, a primeira coisa que se fazia era ir à missa tomar a cinza. A igreja enchia-se. Mas a própria igreja mudou o ritual. Antigamente, o ritual era pôr a cinza na cabeça e dizer: "lembra-te homem que és pó e ao pó retornarás". Hoje em dia o padre diz: "arrependei-vos do pecado", que é menos punitivo. Com a reforma da igreja católica, houve essas mudanças.
Depois da missa, o que se fazia?
Na cidade da Praia, os jovens tinham o hábito da "areiona". Havia uma duna a partir de Quebra-Canela que chegava até ao alto da Achada Santo António, onde está localizada a Embaixada de Portugal. O processo dunal, que transporta areia desde a Praia da Gamboa, passava por cima da Achada Santo António. Com a construção da estrada, a areia foi removida. Os jovens iam lá e rolavam desde lá de cima até ao mar. Chamava-se "areiona".
Essa tradição tinha algum significado?
Nada. Estávamos fartos demais (risos). Mas vinham crianças e adolescentes de toda a cidade. Os adultos já não faziam isso. Durante a escravatura, como o dia de cinzas era um dia sagrado, os escravos também não trabalhavam e eram libertos. Comiam e depois brincavam. A tradição dizia que, desde que não lhes dessem carne, devia-se deixar os escravos livres. Aí faziam as suas tabankas e brincadeiras. E essa tradição da sociedade escravocrata acabou por chegar até nós e manteve-se, na cidade da Praia, até inícios dos anos 70. Vinham crianças e adolescentes de toda a cidade.
Este ano, a CMP decidiu realizar uma feira de cinzas. Que impacto acha que isso poderá ter na preservação ou recuperação de algumas destas tradições?
Acho interessante, porque a tradição tende a mudar com a modernidade, que vai introduzindo novos rituais, hábitos e costumes. A ideia de resgatar a tradição é bem-vinda.

Fonte: http://www.expressodasilhas.sapo.cv/pt/noticias/detail/id/23597

1 comentários:

  1. Apreciei muito esta explicação histórica acerca do significado das Cinzas. Aproveito para indicar aqui um endereço de um Blogue que mostra uma das Tradições Religiosas de Ovar que é a Procissão dos Terceiros (antigamente conhecida po Procissão das Cinzas), pois as primeiras desde 1672 eram feitas na Quarta-feira de Cinzas.

    http://franciscanismovar.blogspot.com

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