domingo, 6 de março de 2011

Crónica de tempo de canequinha: é carnaval, ninguém leva mal (parte II)


No Plateau apinhado de gente, os foliões deambulavam nos espaços, cruzavando becos que iam dar à Praça Alexandre Albuquerque. Na Praça havia pessoas mascarradas de diversas espécies e tons. A criatividade era a palavra de ordem. Os trabalhos de bricolage eram apaixonadamente executados: máscaras de cartão; roupas  sortidos de trapos - normalmente as roupas das pessoas idosas eram as preferidas por parte dos foliões-, rosto pintado com tisna, corpos com óleos que representavam o diabo, enfim, era imensa a criatividade. Outro aspecto interessante que me vem a memória tem a ver com os tratamentos empreendidos aos motorizados. Motos e carros velhos eram usados. Era tal o barulho dos motorizados que completava o ridículo do carnaval.
Enquanto passavam os cortejos e a consequente romaria do público, pessoas gritavam pelo perigo eminente. Eram empurrões sobre empurrões para evitarem novos golpes de farinha. A farinha voava no espaço, nos corpos dos públicos, deixando rastos no chão.  Pensava para os meus botões o porquê de tudo aquilo num país onde a escassez dos produtos básicos era pão nosso de cada dia. Salto seja momentos de apuros no mercado, o leite magro em pós era substituto funcional da farinha. Funcionalidade daquela era para dispensar, já que no carnaval ninguém leva a mal.
Deambulando na cidade de lés a lés na verve colectiva do carnaval era o tal imperativo que alimentava aos miúdos da minha idade. Todos os ângulos do carnaval eram apreciados, servindo depois como trampolim para a nossa conversa no bairro: “eu vi isto… vi aquilo”; “aconteceu isto e mais aquilo… no sitio tal..” Enfim, fazíamos do repórter nos nossos bairros.
O tempo cai num ápice. Na praça as sombras da noite eram evidentes. Os convivas e os foliões começavam a se dispersar. Os espaços nas ruas eram mais largos. Os bulícios davam lugar ao silêncio. As primeiras luzes dos edifícios começaram a despontar em um ritmo contínuo. Também com tanta energia gasta, o repouso era mais do que evidente. Entre os miúdos da minha idade, a conversa já era outra: era a cinza. A vontade de comer peixe seco com batata-doce, cuscus com mel, enfim, era a nossa conversa de ocasião.
No dia seguinte era a cinza, uma manifestação cultural típica da ilha de Santiago. A cinza era e é um dia especial …

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