quinta-feira, 3 de março de 2011

Crónica do tempo de canequinha: é carnaval, ninguém leva mal.


Há coisas que ficam gravadas na memória por mais que uma pessoa resista. Quem não se lembra das épocas carnavalescas dos anos 80, época de grande ebulição colectiva, movido pelo espírito carnavalesco na cidade da praia? Na época existia movimentações nos bairros, achadas, cutelos, alimentado pelo carnaval e cinza. As pessoas brincavam o carnaval com o bidi bidó de manhã e a tarde iam para o cortejo no plateau, centro da cidade. Era momentos de bulícios e de exaltação colectiva que não se verifica actualmente. Existia alegria, festa mas também muita violência… sim violência.
Quem teve a experiência do carnaval de antigamente sabe do que falo. A farinha de trigo era e é um produto caro (estimada) por maioria dos cabo-verdianos, principalmente na cidade da Praia. Os usos desse produto no carnaval ultrapassavam espaço de ridículo, de simples festa; era de uma maledicência atroz. A farinha era atirada na face das pessoas, muitas vezes iam para os olhos. Na falta de farinha (porque na época o mercado era fechado, estatizado) era utilizado leite magro em pó, popularmente chamado de leite «popota» para satisfazerem os seus intentos. Já ouvi relatos do uso de cré (carbonato de cal amorfo). O problema eram os olhos…
As movimentações do cortejo eram feitas de baixo para cima. Os grupos carnavalescos desfilavam-se, seguindo uma trajectória ascendente; começava nos arredores de Fazenda e seguia para o plateau. Era um cortejo político. O Plateau era o centro de poder - administrativo, económico, executivo e judicial. Os senhores do poder assistiam o corteja nas janelas de edifícios da herança colonial, acenando para o povo. As ruas de Plateau parecia um formigueiro. Formigas de mil cores e intenções circulavam num movimento frenético, alimentando bulícios, imaginações e representações.

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