segunda-feira, 7 de março de 2011

Crónica do tempo de canequinha: cinza, sabores e práticas culturais associadas


 A cinza é uma manifestação profana/religiosa com grande peso nas tradições culturais de Santiago. Acontece sempre depois do carnaval, como reza a tradição histórica, em uma incursão que foca a penitência e a ordem social. Como escrevi em um dos post, cada racionalidade possui uma experiência sobre uma realidade que nos é comum, a cristandade.
Mesmo em Cabo Verde, a experiência de cinza depende de tradições das ilhas. Santiago, particularmente, é o berço de cinza no que respeita ao valor atribuído a esta tradição gastronómica. A Câmara Municipal, este ano, quer imprimir, numa conjuntura de continuidade, o valor de cinza como produto turístico da região. Realmente é uma boa visão de valorização das tradições locais para o usufruto económico, consequentemente , a sua internacionalização. A tradição já se encontra institucionalizada há muito tempo na ilha de Santiago. Inclusive há práticas culturais associadas que têm vindo a perder (se calhar já perdeu) a sua força de expressão; falo de «rola na areia» nas ribeiras e praias da ilha. Uma espécie de piquenique colectiva em que os membros da comunidade se confraternizavam, jogando ringue, cartas, entre outros jogos com a finalidade de passar o dia em grupos. Era uma prática muito interessante porque havia sociabilidade muito forte, com interacções e trocas de sabores gastronómicos. Tenho a memória de ter feito «rola na areia» numa das ribeiras da capital; salvo erro no São Pedro.
O que a cinza tem de interessante é a riqueza gastronómica diferente dos sabores do dia-a-dia. As refeições são confeccionadas com peixe seco, couve, leite de coco misturado, tubérculos, entre outras hortaliças. Para acompanhar o pequeno-almoço ou sobremesa, serve-se cuscus com mel. Os meus amigos da época ficavam radiantes com a riqueza gastronómica e o poder de fartura da cinza. Realmente havia exagero em tudo; era caloria a mais.
Tenho a memória interessante da época associada a cinza; o baile numa das casas da vizinhança. No bairro de Vila Nova, perto da nossa casa, a senhora Nácia (falecida) animava o espaço com baile; miúdos da minha idade iam passar o resto do dia ao som de “puli som bento” (os Apolo), «mundo ka bu kaba» (Bulimundo), etc. Como o meu verbo dançar era fraco, ficava sempre no meu cantinho, aprendendo os passos, quiçá, para uma oportunidade. O disco vinil rebolava freneticamente aos sons de costume; quando o vinil se riscava a prosa de baile era interrompido.
Ao cair da noite, a cafuca e o candeeiro a petróleo iluminava o espaço. Ondas de sombras nas paredes do «Som Bento» pululavam, e a acompanhar o calor humano do baile. Na rua, o Mário Copom, fatona, Chiquinha, Djubenço, entre outras personagens da época, reclamavam a entrada, arranjando zaragata entre eles.

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