terça-feira, 1 de março de 2011

Carnaval nos bairros de Santiago



origem e difusão


A palavra carnaval etimologicamente vem da palavra grega “carnis valles” que traduzido à letra significa prazeres da carne. A sua origem remonta ao século XI, com a implantação da Semana Santa pela Igreja Católica, antecede a Quarta-feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma). Em termos do significado, nota-se que esta manifestação cultural manteve o mesmo significado que esteve na sua origem; a ideia de deleite dos prazeres da carne. Isto é, a manifestação exacerbada da libertinagem do corpo motivada por diversas razões; dependendo, no entanto, do contexto histórico-espacial em que este se manifesta. Nas sociedades tradicionais (tribais) o carnaval está associado ao caos social; uma forma de reencontro com o novo mundo.

O que nos interessa é o carnaval que se pratica no ocidente e que teve a sua ramificação nas diversas culturais não ocidentais. Pautado pela origem cristã, o carnaval antecede a Quarta-feira de Cinzas. Normalmente o seu festejo tem a duração de três dias que antecedem à Cinza; acontece sempre as Terça-feira. Os três dias que antecedem o carnaval são chamados de “gordos” que significa o exagero e excesso em contraponto à Cinza que significa a penitência, privação e muita reza. Em Cabo Verde, especialmente na ilha de Santiago, o dia de Cinza é dia de fartura, não de privação como reza a tradição histórica.

O Carnaval é uma manifestação cultural universal que penetra e entrecruza diversas racionalidades. A forma e os processos festivos variam no tempo e espaços. Como vimos anteriormente o carnaval, na sua origem e percurso histórico foi marcado pelo exagero.

Na Antiguidade, o festejo do carnaval acontecia num clima de exagero feito de comidas, bebidas e de celebrações várias; prolongava-se durante sete dias nas ruas, praças e casas da Antiga Roma nos dias 17 a 23 de Dezembro. O tempo parava nessa época para brincar o carnaval. Até os escravos tinham liberdade provisória para brincar o carnaval.

No Renascimento o carnaval ganhou novo enquadramento com a incorporação de máscaras durante os bailes. Pode-se dizer que se trata de um marco importante na evolução do carnaval moderno e contemporâneo, com a incorporação de ricas fantasias e carros alegóricos. A sua difusão para outras latitudes tem a ver com as conquistas europeias no mundo. O triunfo da nova filosofia de vida da sociedade vitoriana ajudou nessa irradiação com as novidades em termos de estilos e motivos alegóricos para diversos países. Os lugares mais famosos nas festividades do carnaval são sem dúvidas Nice, Nova Orleães, Toronto, Veneza e Rio de Janeiro e outros lugares no mundo.

Carnaval nos bairros de Santiago

No passado, a vivência dos cabo-verdianos pautava-se pelas criações imaginárias. Nessas criações criaram-se mitos, lendas, personagens e factos que são autênticas matérias heurísticas para compreender as vivências do povo. O carnaval dos bairros era um desses mitos, personagens e factos que se encontrava encravada na memória colectiva. Tratava-se de manifestação anual que ligava os populares dos bairros e dos cutelos de Santiago. Actualmente, muitas das manifestações populares, caso do carnaval popular, perderam os seus sinais do tempo.
O carnaval dos bairros era uma autêntica manifestação grotesca em que as pessoas das classes populares vestiam e ornamentavam ridiculamente para fazer medo as crianças e adultos nas imediações ou dentro do bairro. As pessoas vestiam roupas enchidas de trapos, cara pintada de carvão ou tisna de panela para darem imagem de ridículo e de medonha. Normalmente durante o cortejo era acompanhada pela música: “é bidi bidó, é di tenterém, é di cabra preta…” O significado desta cantiga confesso que não sei. O cantar era repetido vezes sem conta que acompanhava o bidi bidó (o actor) nas suas andanças nas ruas das vizinhanças, as vezes desciam as encostas numa romaria de gozos e cantares.

Actualmente esta manifestação popular praticamente não existe. O espírito que acompanha o cortejo mudou consideravelmente. O carnaval mudou de espaço público dos bairros, cutelos para o espaço urbano. Isto porque o capitalismo, com os seus produtos industriais e influências externas, teve impacto negativo no espírito carnavalesco dos bairros.  Os produtos culturais e novas formas de manifestações importadas do Brasil contribuíram para dar novo brilho ao carnaval; perdeu-se a espontaneidade e a criatividade nos bairros. Agora o carnaval voltou para os centros urbanos, com ele surgiram trasvestidos de bidi bidó as personagens do bairro sem a canção que o acompanhava durante a sua origem.

A patrimonialização do carnaval é uma forma de valorizar este património universal. A identificação e o levantamento de formas de expressão do carnaval no arquipélago deve ser uma estratégia de desenvolvimento social e cultural que deve ser implementada a curto prazo.

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