segunda-feira, 14 de março de 2011

António Silva Roque: “Pantera era um poeta autêntico”

O jornalista António Silva Roque privou com o músico Orlando Pantera nos tempos em que ambos trabalhavam na Assomada. Nestes depoimentos Silva Roque resgata algumas memórias do seu convívio com o músico falecido há 10 anos.
Expresso das ilhas - Lembras-te como conheceste o Orlando Pantera?
António Silva Roque - Creio que terei conhecido o Orlando Pantera antes de o conhecer. Nos finais dos anos 80 ele fez um curso para a educação de menores e, através de um amigo meu, o Luís Filipe, que hoje trabalha como agente da Polícia judiciária, entrei em contacto com o Pantera. Mas só vim a conhecê-lo, mais de perto, por volta de 1992, quando cheguei à cidade da Praia. Levaram-me para conhecer a cidade da Assomada e ali pude travar amizade com o Pantera, se é que eu possa falar de amizade, porque não se tratava de uma amizade muito profunda, mas, seja como for, é uma amizade que eu quero preservar.
Diz-se que a matriz da música de Pantera é a infantil. O que sabe desta fase menos conhecida do músico?
Como o Pantera tinha uma grande sensibilidade para as crianças, chegou a trabalhar na escola de música Pentagrama, no tempo em que trabalhava ali com o Tó Tavares. Eu era uma espécie de administrativo e ele e o Tó eram professores. Nessa altura a Escala Pentagrama era solicitada constantemente para os grandes eventos. Lembro-me de uma grande conferência da CPLP realizada na Praia, em que a escola foi convidada para actuar e o Pantera era o homem que fazia sempre essas composições. Não sei onde é que param essas composições, ou se ficaram na memória dos seus alunos como o Pedro Moreno, a Mayra Andrade, a Samira e outros. Estou a recordar uma altura, ali por volta de 1996, quando ele abandona a aldeia infantil SOS, onde trabalhava. Ele foi desabafar comigo que ia deixar a SOS para se dedicar exclusivamente à música. Muitas pessoas discordaram então que era uma grande leviandade deixar assim o trabalho. Se ele tivesse dado ouvido a essas pessoas, não teria encetado uma carreira que acabou por ser determinante na notoriedade que ele tem hoje. Ele podia ter dado muito mais, se não tivesse falecido precocemente, mas mesmo assim ele montou um projecto sério e profundo para a música de Cabo Verde. Ele falava-me sempre das suas "recodjas". Todas as vezes que nos encontrávamos, eu perguntava-lhe: ‘por onde é que você tem andado'. Ele respondia, ‘eu ando pelos funcos de Santa Catarina na nha recodja'. E ele explicava-me ‘recodjas significa registar as memórias antigas dos nossos populares, porque essa gente vai desaparecendo. Essa gente conserva uma parte significativa do nosso folclore e é ali que eu vou beber. Qualquer dia dou-te uma grande resposta'. Ele conseguiu dar essa resposta na sua curta vida, mas creio que a resposta que ele me queria dar e às pessoas que indagavam sobre as suas recolhas poderia ter ainda uma dimensão maior se tivesse vivido mais. Ele ficou muito magoado com determinadas pessoas que acusaram-no de não querer trabalhar. Ele desabafava comigo: ‘ eu sei o que eu fiz e acredito que um dia os artistas, em Cabo Verde irão ser respeitados. Os artistas cabo-verdianos são acarinhados, mas também são estigmatizados. É o que estou a pagar, mas tenho fé que um dia os artistas cabo-verdianos vão-se libertar da estigmatização'. Lembro-me de um outro episódio quando ele regressou de uma viagem a Portugal, numa altura em que ninguém tinha ainda gravado músicas do Pantera. Encontrei-me com ele no Platô e ele disse-me que o Mário Rui tinha gravado músicas dele, mas quase sem a sua autorização. Devo acrescentar que o Mário Rui sempre disse ao Pantera que no dia em que gravasse, iria gravar as suas composições. Mas quando o Mário Rui gravou, não sei se por dificuldades de comunicação, pois um estava em Portugal e o outro em Cabo Verde, não houve o consentimento directo de Pantera. É certo que havia esse pré-acordo, mas não havia um acordo de fundo. E o Pantera confidenciou-me que gostaria que antes de o Mário Rui ter gravado essas músicas que ele lhe tivesse abordado de uma outra forma para poderem acertar alguns pontos.
Mesmo sem terem acertado os tais pontos, a interpretação da morna " Seiva" por Mário Rui é fabulosa. Entretanto Tó Tavares afirma que o texto é seu. Confirma?
É a pergunta mais difícil que me fazes. Prefiro não responder. Não gostaria de entrar neste assunto, porque Pantera era um homem muito sensível e muito sério. Eu não desejaria que essas disputas fizessem escola em Cabo Verde. Se você tem talento e conseguiu realizar uma obra de arte, poderá realizar uma superior e provar que você é essa pessoa que pensa ser.
Achas que Pantera teve, em vida, o reconhecimento que lhe era devido?
Lembro-me de que por volta de 1997 Ildo Lobo ter dito algures que ele ia gravar um disco e trazer uma grande revelação para a música cabo-verdiana dos próximos tempos - ‘chama-se Pantera, revelou'. A música a que Ildo Lobo se referia era Tunuca gravado no disco "Porton di nos Ilha". Recordo-me de que no acto do lançamento do disco, Jorge Miranda Alfama exaltou as qualidades do músico e o Pantera estava ainda vivo. O que é uma coisa rara entre nós, porque, em princípio, nós não temos essa cultura de reconhecimento. Para Jorge Miranda Alfama foi uma surpresa muito grande um jovem dos seus vinte e tal anos na altura com uma tão semelhante dimensão lírica. Isso chamou-me a atenção, porque como disse anteriormente, em Cabo Verde, não damos o devido valor aos nossos artistas. Como escreveu o poeta Eugénio de Andrade, o que há de mais triste entre nós é o ritual dos mortos. Quando um indivíduo morre, toda a sociedade está virada para dar a esse indivíduo o que o negámos em vida. Isto terá acontecido com o Pantera, embora ele tivesse merecido o reconhecimento de algumas entidades e de algumas individualidades. Lembro-me de, numa entrevista, o Dr. Manuel Faustino, de uma forma séria, ter chamado a atenção para as qualidades do Pantera e da emergência de um valor que não devia ser ignorado. Pantera teve o reconhecimento que teve, mas em Cabo Verde uma pessoa só é valorizada, quando desaparece do cenário de competição.
Podes situar a altura em que Pantera dá o solto da música de matriz infantil para a música tradicional?
Penso que a partir de 1996/97 Pantera já tinha uma certa dinâmica criativa e já era do domínio do público e com maior intensidade, a partir de 1998/99 quando ele integra a companhia de Clara Andermatt. A sua entrada neste projecto deu-lhe uma grande visibilidade. Da mesma forma, terá contribuído a sua ligação ao Mindelact para a sua projecção, enquanto artista.
Qual é a presença de Pantera na música cabo-verdiana da actualidade? 
Pantera é uma estrela que brilhará para todo o sempre, porque as composições que ele nos deixou têm uma dimensão intemporal. Tomemos a já referida composição ‘Tunuca': ele faz referência a essa imigração forçada para São Tomé; ele resgata o passado e isso tem sempre valor para nós, para sabermos o que é que fomos e o que é que nós queremos ser. Outro tema: ‘Pamodi ki criança ta sufri'. Também acredito que enquanto a humanidade for humanidade a criança há que sofrer, porque o ser humano está enquadrado nos patamares do sofrimento. E neste mundo sem paz, sem alegria, as crianças são as vítimas. Esta retórica, pamodi, pamodi, é uma pergunta filosófica que dá uma dimensão filosófica profunda a esta composição. Pantera era um poeta autêntico.
Recordas-te do último encontro com Orlando Pantera?
Uma semana antes de o Pantera morrer, eu estava na Fazenda, na Praia, e aparece o Pantera todo elegante vestido de branco com um colar imponente e diz-me ‘Tenho uma oferta para si. Tu e a tua esposa vão assistir ao meu espectáculo no Quintal da Música'. Entretanto, não pude aparecer nesse espectáculo. Foi mais ou menos uma semana antes de ele morrer. No dia seguinte ao concerto, encontrei-me com ele no Platô e ele me disse, ‘Silva Roque, muito obrigado pela tua presença e pelas tuas estrondosas palmas que fizeram a plateia vibrar e que me deu o elã para um grandioso espectáculo'. Quando me desculpei, ele disse ‘Eu compreendo, porque estavas espiritualmente comigo'.

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